O Planeta TV

E aí, Manoel Martins? Aprovando tudo, qualquer um...

Cada vez mais planejamento se faz importante em empresas. Mas, ao que parece, a Globo não sabe mais disso.

Por: Victor Rezende - Email: [email protected]

Tenho pena do Schroder. Sim, é verdade que ele quer uma TV com mais qualidade do que aquela que se preocupa apenas com metas a bater e com audiência. Louvável seja sua atitude. O diretor está certíssimo em lutar por aquilo que acredita: por mais qualidade, prêmios e uma nova linguagem na TV aberta brasileira. Só que isso, a curto prazo, não está surtindo o efeito desejado. Muito pelo contrário...

Diretor-geral da Globo, Schroder assumiu há pouco mais de um ano. O ano passado serviu de testes, mas as marcas de sua gestão começaram, de fato, desde o segundo semestre de 2013. Contudo há algo que merece mais atenção e que passa quase que despercebido: se as novelas são o carro-chefe da Globo e não estão indo bem na audiência, quem merece um cuidado maior são... as novelas. Até aí, novidade nenhuma. O problema é que isso não acontece.

Enquanto Schroder está preocupado demais com queda de audiência, produtos de qualidade e maior quantidade de programas ao vivo na grade - algo muito interessante, diga-se -, abaixa a cabeça e diz 'amém' para tudo o que é oferecido pela área de entretenimento. Não adianta criar um fórum de programas de auditório, comandado por Boninho, e nem um fórum de teledramaturgia, sob a supervisão de Silvio de Abreu, se o que lá for decidido não for seguido. É apenas delegação de funções para pessoas que têm mais o que fazer e que deveriam trabalhar em outros projetos. E mesmo que sejam discutidas coisas pertinentes nesses fóruns, pode-se crer que não serão seguidas por inteiro por um motivo: há um critério muito baixo na seleção de material feita pelo diretor de Entretenimento da Globo, Manoel Martins.

No passado, a emissora já errou muito, entretanto não aprendeu com os erros. Ao menos não demonstra nenhum amadurecimento. E repito: isso se deve à falta de critério na avaliação de sinopses propostas por autores dentro da emissora. Quais são os critérios de Manoel Martins? Não há planejamento, não há vetos, não há preocupações. Assim sendo, qualquer um pode sentar em sua cadeira, pegar um carimbo e aprovar tudo o que vier pela frente.

Falta de planejamento

Planejamento não é apenas fazer uma lista com a ordem de autores que virão por aí, em seguida. Claro, isso faz parte, mas é algo mínimo. Planejar é não deixar uma trama solar como Flor do Caribe ser exibida no inverno, enquanto Lado a Lado A Vida da Gente são jogadas aos leões no verão.

Planejar é prever o futuro e tentar moldá-lo a seu favor. É conversar com o autor de determinado produto e prever futuras "cartas na manga" para se salvar algo, se necessário. E alguém viu alguma "carta na manga" de Manoel Carlos para Em Família? Aliás, alguém leu a sinopse com todos os acontecimentos da trama? Pois é... o fracasso também deve estar nos planos. Ops, não temos planos...

Falta de autoridade

Sem planejamento, não se tem nenhuma autoridade sobre aquilo que se deseja. Com uma aprovação desenfreada de todo e qualquer produto que chega em sua mesa, Martins não executa vetos nem em produtos nem em setores desses produtos. Alterações significativas em sinopses? Nem pensar. A autoridade é a do carimbo. E ele está em todas. Tudo em nome da qualidade. Mas qualidade sem ter ninguém que veja é meio chato. E contraditório.

Sem preocupações...

- Tal programa está indo mal na audiência.

- A gente torce pra ele se recuperar logo. Vamos pensar positivamente porque daí o público volta.

Concordo com o que é dito por Schroder: não deve haver metas a serem cumpridas, porque se torna algo muito sisudo e o entretenimento, principalmente, não deve ser assim. Mas uma cobrança por melhores resultados, quando necessário, é bem vinda e se faz necessária. É algo saudável, inclusive. Torna-se uma aspiração. Fazer algo por simplesmente fazer? Perde-se a emoção.



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Comentários (4) Postar Comentário

Raphael Cavalcante comentou:

O texto enfoca em audiência pura e simplesmente. Esquece de tocar no que mais interessa ao telespectator: a qualidade. É uma mania chata essa de medir um produto apenas por seus pontos no Ibope.

Lauro Jordão comentou:

Mais preocupados com audiência do que os diretores do Globo. Péssimo.

Raphael Cavalcante comentou:

Números de audiência interessam unicamente à emissora e aos patrocinadores. O telespectador tem que se preocupar unicamente com a qualidade daquilo que assiste. Mas por aqui existe essa ideia fixa de que um programa só vale a pena se bater recordes de audiência. Quantas novelas ruins já obtiveram grande êxito? E quantas novelas aclamadas pela crítica foram redundantes fracassos de audiência. A lista é grande. Prestem atenção apenas no que interessa.

Walther Zavarezzi comentou:

Discordo com os comentários dos colegas acima. Está certo o texto. A Globo, antes de tudo, é uma empresa. Uma empresa que presta "serviço" pra gente. Trabalho com Marketing, atuo muito com planejamento. Os eventos que organizo são precisamente calculados de acordo com o público que vai atingir, com os patrocinadores, com as datas comemorativas... tudo tem que estar alinhado. Essa questão ai de Flor do Caribe no inverno e as outras (menos solares) no versão, nunca tinha prestado atenção, mas é bem verdade. Fora isso, há a questão das figurinhas repetidas (vide Gagliasso e Cauã Reymond), as tramas longuíssimas e uma mesmice sem fim (vide Em Família).
Enquanto autores que já fizeram muito sucesso - e hoje debruçam sobre uma preguiça infinita - roteiristas como eu, que tem muito para mostrar, continuam tendo que assistir a fracasso de quem não acompanhou as mudanças do mundo...

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