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Memórias de um Gigolô é um biscoito fino esquecido pela Globo

Ambientada em 1920, a trama narra as peripécias de um inusitado triangulo amoroso.

Por: Emerson Ghaspar - Contato: [email protected]

Bruna Lombardi, Ney Latorraca e Lauro Corona (Foto: TV Globo)

“Aos cinco anos já vendia empadinha na estação de trem. Ninguém chegava a comprar, espantados com minha magreza e já iam me dando uma moeda, que eu, humilhado jogava longe, claro,queria trabalhar, não queria esmola. Quando fiz sete, as pessoas apostavam dinheiro se eu iria chegar a outubro ou não passava de setembro. Quando fiz oito, passei o ano escondido, porque cada pessoa que eu encontrava me dava uma surra, lembrando da aposta perdida...”

Era assim, que Mariano (Lauro Corona) contava sua infância aos demais personagens de Memórias de Um Gigolô, minissérie exibida em 1986 pela Rede Globo, que tinha como ponto de partida as lembranças do rapaz.

Ambientada no fim dos anos de 1920 na cidade de São Paulo, Memórias de um Gigolô tem início com o atropelamento de Antonieta (Lolita Rodrigues), tia de Mariano que cuidava do menino desde pequeno. Sem ter para onde ir, ele é acolhido por Madame Yara (Elke Maravilha), que o leva para morar em seu bordel, o Palácio de Cristal.

É lá que Mariano conhece os prazeres sexuais e duas pessoas que irão mudar a sua vida: o gigolô Esmeraldo (Ney Latorraca) e Guadalupe, ou como é mais conhecida: Lu (Bruna Lombardi),uma prostituta sensual e doce, que irá mexer com sua cabeça.

Mariano tem em Esmeraldo um grande mestre, com quem aprende as técnicas para seduzir as mulheres. Já Esmeraldo é um homem charmoso, elegante,amante da boa musica, que sabe dar golpes como ninguém. O gigolô mestre usa da beleza de sua amada Lu para aplicar golpes em milionários, o que permite que sempre ganhe uma boa quantia de dinheiro.

Esmeraldo e Lu fazem um casal perfeito e isso desperta o interesse de Mariano, que se apaixona pela prostituta. Está armado o triangulo amoroso que conduzirá a trama. Curiosamente, Lu, que era devota de Nossa Senhora de Guadalupe, retribui aos sentimentos de Mariano.

Bruna Lombardi em cena de Memória de um Gigolô (Foto: TV Globo)

Sem conseguir viver longe de sua amada, Mariano e Esmerado tentam se livrar um do outro, mas a prostituta sempre ajudava aquele que mais precisava no momento, largando o que tinha para fazer para ajudar um dos amados. Por outro lado, os gigolôs não conseguem ficar longe da prostituta e percebem que não podem viver longe dela.

O amor de Lu era quem conduzia a trama, em um jogo de sensualidade e liberdade, sem que nenhum deles vivesse com culpa ou com o peso de traição em suas costas. Alegres, jovens e sem medo de qualquer repressão. Esmeraldo, Mariano e Lu vivem sem pudores em uma década de modificações do século XX.  No último capítulo, há uma passagem de tempo mostrando que eles continuaram vivendo bem entre si com o passar do tempo.

Memórias de Um Gigolô foi ambientada na época do apogeu da cultura cafeeira, marcado por grandes festas, pela riqueza e pela ostentação do poder dos que ganharam muito dinheiro com o café.  A obra foi construída tendo a vida de profissionais considerados marginais (gigolôs e prostitutas) como referencia, já que eles se comportam sem seguir determinados pudores. A obra ainda mostrou a malandragem “inocente” e sua decadência, durante os anos de romance entre Esmeraldo, Lu e Mariano.

A equipe de cenografia, sendo chefiada por Raul Neves chegou a construir 150 ambientes  inspirados na arquitetura dos anos de 1920  para a minissérie, sendo que alguns deles chegavam a ser exibidos por alguns segundos. Memórias de Um Gigolô teve cenas gravadas em Poço de Caldas e Pirapora no estado de Minas Gerais; na cidade de Friburgo no Rio de Janeiro e em Santa Cruz das Palmeiras e Mococa em São Paulo, onde foram gravadas as imagens de casarões antigos.

A equipe de figurino, sob o comando de Beth Filipeck inspirou-se nos desenhos do ilustrador J. Carlos (1884-1950)  para confeccionar o figurino, já que retratavam a época das melindrosas e dos malandros, todos típicos da Belle Époque. A equipe de caracterização retratou muito bem os sapatos e vestimentos daquela época, em um requintada e luxuosa reconstituição dos anos de 1920. A atriz Bruna Lombardi tingiu os cabelos de preto bem adequado para época, tipicamente usado pelas melindrosas e pela atriz americana Louise Brooks, estrela do cinema mudo.  Já o ator Ney Latorraca usava um típico bigode representativo dos anos de 1920.

Destaque para a interpretação dos atores principais: Ney Latorraca com seu Esmeraldo, um malandro charmoso que apesar de todos os golpes cativava o público; Bruna Lombardi por sua Lu repleta de nuances e Lauro Corona pelo sofrido porem esperto Mariano. Destaque para atuação de Elke Maravilha como Madame Yara. Curiosidade: Memórias de Um Gigolô foi a única minissérie de Lauro Corona.

Além da trama central, o diretor Walter Avancini criou vinte contos independentes, com começo e meio e fim, que eram ligados ou convergiam com a história central. Essas histórias duravam apenas um capítulo e faziam com quem a trama central mantivesse interessante, ao mesmo tempo em que tivesse um gancho para o dia seguinte. A cada dia novos personagens entravam na trama.

Escrita em tom de opereta, Memórias de Gigolô não possuiu uma trilha sonora, ou seja nada foi comercializado, mas foram utilizados trechos das melhores musicas dos anos de 1920.

A minissérie nunca foi reprisada ou lançada em VHS ou DVD/BlueRay, mas possui um ersão cinematográfica de 1970 dirigida por Alberto Pieralisi e estrelado por Claudio Cavalcanti (Mariano),Rossana Ghessa (Lu) e Jece aladão (Esmeraldo).

Adaptado para a TV por Walter George Durst e Marcos Rey (que autor do livro que deu origem a obra), mas com roteiro final e direção de Walter Avancini, sob a supervisão de Daniel Filho e com produção de núcleo de Ary Grandinetti Nogueira; Memórias de Um Gigolô foi exibida de 14 de julho a 08 de agosto de 1986 em 20 capítulos as 22h.

Com texto afiado e com a direção segura de Walter Avancini, Memórias de Um Gigolô é uma das excelentes obras feitas pela Rede Globo, que foi esquecida por ela mesma. Uma belíssima reconstituição de época e atores afinados, relembram uma década cheia de charme e glamour que viria a mudar o comportamento de toda uma geração. Apoiando em personagens de conduta e moral duvidosa (afinal gigolôs e prostitutas) nunca foram bem vistos e quistos pela sociedade, a produção da trama apostou em algo humanizado para contar uma inusitada forma de amor. Vale a pena ser vista no Luz, Camera, 50 anos, no Canal Viva, em qualquer outro lugar. Memórias de Um Gigolô merece reprise e ser lembrada. Biscoito fino não se nega.



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Comentários (3) Postar Comentário

Carlos Luiz de Oliveira comentou:

E o tal Festival dos 50 anos continua reprisando produções recentes e poucos marcantes que não conseguem comemorar nada, muito menos os 50 anos da Globo...

julio Henrich comentou:

A globo prefere passar certas minesseries como amores roubadas que só tem apelo sexual!

Jose Orlando Martins comentou:

Tive a honra de participar desta minissérie em Santa Cruz das Palmeiras-SP como figurante, ficando atrás de Ney Latorraca par apostar na corrida de cavalos -Humaitá.

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