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Força de um Desejo: belíssima reconstituição de época às 18h

Inspirada em nossa literatura, a trama tinha como referência a obra Visconde de Taunay.

Por: Emerson Ghaspar - Contato: [email protected]

Disposta a levantar os índices de audiência do horário das 18 horas, que andava em baixa, a Rede Globo resolveu levar ao ar uma trama aos moldes do gênero que a consolidou: o de época e investiu pesado em Força de um Desejo, trama assinada por Gilberto BragaAlcides Nogueira e Sérgio Marques.

A trama principal de Força de um Desejo contava a história de um romance impossível. Ambientada na segunda metade do século XIX, a trama contava a história de Esther Delamare (Malu Mader) e Inácio Sobral (Fábio Assunção) que enfrentam as ciladas do destino para ficarem juntos. Enquanto ela é uma famosa cortesã na Corte, ele faz parte de uma tradicional família da região do Vale do Paraíba.

Inácio é filho do barão Henrique Sobral (Reginaldo Faria), um prospero fazendo com idéias liberais para sua época e que vive da agroindústria. O nobre é casado com Helena (Sônia Braga) e é pai do introspectivo Abelardo (Selton Mello) e do confiante Inácio, que parte das terras em direção a Corte por não concordar com a maneira com que seu pai trata sua mãe, sempre a isolando do mundo e até impedindo que ela chegue próximo a janela. O motivo de tal atitude é que o barão sabe que o caçula é filho de Higino Ventura (Paulo Betti), um ex-mascate que enriqueceu através de meios misteriosos.

Higino volta a Vila de Sant’Anna, onde se passa a trama, e compra a fazenda Morro Alto, vizinha a fazenda Ouro Verde de propriedade de Henrique Sobral e faz de tudo para que seu rival tem inclusive o título de barão. O ex-mascate é casado com a fútil Bárbara (Denise Del Vecchio) e pai da maquiavélica Alice (Lavínia Vlasak).

Apesar de todo o interesse por Helena, Higino acaba se encantando por Olívia (Cláudia Abreu), uma escrava branca foragida da polícia. O vilão fica obcecado pela jovem, mas ela o rejeita ao se apaixonar pelo médico Mariano (Marcelo Serrado), grande amigo de Inácio.  A situação da escrava se complica quando o ex-mascate descobre a origem da escrava e a compra para ser mucama de Bárbara. Depois de muito resistir às investidas do fazendeiro, Olívia consegue comprar sua alforria e, casa-se com Mariano.

Entre as tramas que envolvem a fazenda Ouro Verde, está a história de Clemente (Chico Diaz), o capataz da propriedade que é obcecado por Zulmira (Ana Carbatti), a mucama de confiança de Helena. A escrava é mãe de Dário (Samuel Costa) e Marta (Elida Muniz), que durante a trama é vendida por Idalina. Entre os escravos estão Rosália (Chica Xavier), a alcoviteira e maldosa Luzia (Isabel Fillardis), Quirino (Cosme dos Santos) e Cristovão (Alexandre Morenno), grande amigo de Abelardo, que tenta ajudá-lo a conquistar a confiança do barão.   

Com a ida de Inácio para a capital com a proposta de estudar Direito, Henrique se vê próximo da falência, apesar da ajuda de Abelardo e sofre com a pressão de Higino para ter todos os seus bens. Já o primogênito do barão conhece Esther e com ela vive um forte romance, só interrompido quando o rapaz descobre que sua mãe está à beira da morte.

De volta a fazenda, Inácio descobre toda a verdade sobre seu irmão e o barão acaba fazendo as pazes com Helena antes de sua morte. A baronesa que havia melhorado, subitamente vem a óbito.

Disposto a voltar para a Corte e ficar com Esther, Inácio acaba sendo vítima das armadilhas de Idalina (Nathália Timberg), sua avó e grande vilã da trama, que quer casá-lo com Alice, em uma tentativa de escapar da pobreza. Apesar de não saber que o neto está apaixonado por uma cortesã, a megera não quer vê-lo se unir com alguém de uma classe inferior e arma para que a filha de Higino se casa com ele.

Para se livrar de Esther, Idalina falsifica uma carta em nome de Inácio, onde termina tudo com a cortesã. Sentindo-se rejeitada, a jovem parte para Lisboa e o filho de Henrique não consegue desfazer o mal entendido. Há uma passagem de tempo e em uma viagem a Corte, o barão se apaixona pela ex-namorada de seu filho. Esther e Henrique acabam se casando.

Após o casamento, Esther e Henrique vão morar na Ouro Verde, onde a cortesã volta a se reencontrar com Inácio, seu grande amor do passado. No início, eles se evitam, mas no decorrer da trama fazem as pazes, ao desvendar toda a verdade, mas não ficam juntos pois ela não quer abandonar o barão que está doente e Inácio decide se casar com Alice para enfim poder salvar a fazenda da falência.

Há uma reviravolta na trama quando Esther descobre que Henrique está mentindo sobre a gravidade de sua doença. A ex-cortesã procura pelo seu amado e juntos decidem fugir na noite do noivado do rapaz. Nessa mesma noite, o barão acaba assassinado e a culpa recai sobre o irmão de Abelardo.

A partir desse ponto, Força de Um Desejo torna-se uma novela policial. No último capítulo é desvendado o assassinato do barão Henrique Sobral. Bárbara, esposa de Higino Ventura, baleou o dono da Ouro Verde no exato em que Alice chegou na festa de noivado. Devido aos fogos de artifício que anunciavam a noiva, o som foi abafado. Descobre-se que a fútil esposa do dono da Morro Alto ainda havia matado outros personagens, mostrando uma faceta desconhecida pela maioria. Ela acaba presa em um manicômio.

No final da trama, Idalina e Alice foram presas por suas tramas e Higino, o grande vilão da trama acabou morto, após tentar sequestrar Olívia. Na ocasião, o pai de Alice chega a lutar com Mariano. O fazendeiro é baleado, mas ainda tenta esfaquear o rival. Mariano é salvo no último instante pelo escravo Cristóvão, que dá fim a vida do vilão com um golpe de facão. Nas cenas finais, Inácio descobre que Esther está grávida e liberta os escravos de sua fazenda.

Força de Desejo é inspirada em três obras de Visconde de TaunayA Retirada de LagunaInocência e A Mocidade de Trajano, sendo que a última obra inspirou a trama central da novela. Alcides Nogueira, que na época colaborava com Silvio de Abreu em Torre de Babel, havia escrito a sinopse da novela nos anos de 1980 e entregue a Paulo Ubiratan. O diretor morreu e com ela a probabilidade de uma possível realização. Já nos anos de 1990, Marcos Paulo havia se interessado e entregue a Marluce Dias Silva (a responsável na época), que acabou enviando a sinopse para Gilberto Braga. Foi então que uma nova sinopse foi escrita pelos dois.

O cenário rural tinha como referência às fazendas centenárias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, assim como a cidade cenográfica de Vila de Sant’Anna, construída no Projac, mas com forte inspiração nas cidades mineiras Ouro Preto e Tiradentes. A equipe de cenografia ainda utilizou uma antiga estação de trem, próxima à cidade de Teresópolis, para servir de cenário para as gravações da inauguração da estrada de ferro Rio-Vassouras.  A novela ainda utilizou parte das estruturas usadas na minissérie Chiquinha Gonzaga, de autoria de Lauro Cesar Muniz.

Nas cenas gravadas em locações reais, a equipe de cenografia teve que esconder poste de iluminação e cimento dos pisos. As lâmpadas típicas nessas cidades históricas foram trocadas por velas. Na ausência de poucos lugares arquitetônicos no Rio de Janeiro, a equipe de efeitos visuais inseriu cenas da cidade modificando-se com o tempo. As cenas de ópera no primeiro capítulo; o terceiro ato de Bodas de Fígaro, de Mozart; foram gravadas no Teatro Municipal de Niterói, com 100 figurantes.  Algumas cenas foram gravadas na praia de Grumari, no Alto da Boa Vista e no Forte São João, ambos no Rio de Janeiro.

Para compor os cenários, a produção adquiriu várias peças em antiquários e uma prensa foi reformada para funcionar nas cenas que envolviam o jornalista Bartolomeu (Daniel Dantas), dono do jornal fictício da trama. A produtora de arte Denise Carvalho teve como referência os filmes Dama das Camélias e Os Brutos Também Amam para compor a redação de um jornal e objetos que eram utilizados em casa da época.

Sob a responsabilidade de Nonato Estrela e Carlos Botelho, a fotografia de Força de Um Desejo teve como referência o filme Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick.  As cenas ganharam tonalidade âmbar em sua iluminação, realçando a luz de velas. Em três semanas de gravação já se havia usado mais de mil velas.

O elenco participou durante duas semanas de um workshop de duas semanas, tendo como temas o Romantismo, Cotidiano nas fazendas e senzalas e Brasil Imperial.

Destaque na trama para as interpretações de Paulo Betti e Cláudia Abreu, com seus dúbios personagens que iam do emotivo ao cruel em questão de minutos; Cláudio Correa e Castro como Leopoldo, o marido calmo e paciente de Idalina e Isabel Fillardis por sua pérfida Luiza. Curiosamente a atriz iria interpretar Clarice em Suave Veneno, mas acabou sendo desligada do projeto e foi remanejada para essa obra, fazendo um dos melhores papeis de sua carreira.

O grande destaque mesmo foi Nathália Timberg com sua vilã visceral, anteriormente a atriz só havia feito papéis pequenos longe de seu talento. A novela foi o último trabalho completo em televisão do ator José Lewgoy, interprete do Conselheiro Felício Cantuária, papel que foi escrito após um pedido ao autor Gilberto Braga. Curiosamente o personagem participaria dos capítulos inicias, mas acabou ficando até o final. O ator viria a falecer em 2003, após fazer participações especiais em outras obras.

Força de um Desejo trouxe de volta as novelas brasileiras a atriz Sônia Braga, que desde 1980 não atuava em uma novela, a última havia sido Chega Mais de Carlos Eduardo Novaes, escrita por Walther Negrão.

Em seu livro O Circo EletrônicoDaniel Filho comenta sobre a obra: A novela foi esticada tremendamente: 226 capítulos, mas começou e terminou com muito amor. Não foi um sucesso, mas também não foi um fracasso retumbante.

A trilha sonora de Força de Um Desejo teve somente um álbum com Malu Mader como Esther Delamare na capa. A produção ficou a cargo de Roger Henri, sob a direção musical de Mariozinho Rocha.  As faixas eram compostas pelas músicas: O Amor pra Mim / Daniela Mercury, Dono de Mim /Sandra de Sá, Rosas do Sul/André Rieu, Valsa do Desejo/Simone, Doce Prisão/Fafá de Belém, Vida de Artista/ André Rieu, Serenata/ Orquestra de Filadélfia,
A Viagem do Café e As Terras do Barão/ Roger Henri, Valsa em Dó Sustenido Menor, Op. 64, n°. 2 / Orquestra de Filadélfia,  As Terras do Barão/ Roger Henri, Mimar Você / Virgínia Rodrigues, Emperor Valse, Op. 437 e Annen Polka   Orquestra Filarmônica de Viena.

A música de abertura Tema para Ana, uma valsa inédita composta por Tom Jobim para sua mulher, pouco antes de morrer, em 1994, era uma canção com arranjos do maestro Jacques Morelenbaum e execução da Orquestra Sinfônica Brasileira e do pianista Cristóvão Bastos como solista. A trilha instrumental da trama era composta por cantos de escravos, seguidores da cultura Bantu.

A trama de época foi à primeira novela a usar o closed caption – sistema de legendas que permite aos deficientes auditivos acompanharem o que está sendo dito no programa durante sua representação no Vale a Pena Ver de Novo, entre setembro de 2005 e fevereiro de 2006. A novela foi vendida para 15 países e chegou a ser exibida em Portugal, no mesmo ano de sua exibição original.

Escrita por Gilberto Braga, Alcides Nogueira e Sérgio Marques, com a colaboração de Lilian Garcia, Eliane Garcia, Filipe Miguez, Márcia Prates e Marília Garcia, Força de um Desejo teve a direção de Carlos Araujo, Fabrício Mamberti, João Camargo, Mauro Mendonça Filho e Marcos Paulo (que dirigiu os vinte capítulos iniciais). A trama teve 226 capítulos.

Força de Um Desejo é o clássico exemplo de que nem sempre uma boa história com o máximo requinte e capricho pode se tornar um grande sucesso de audiência. A nossa literatura renderia inúmeras obras que poderiam conquistar, mas esbarram em um público instável que quer algo bem mastigado e com histórias repetidas, que vivem dizer cansados de tramas clichês, mas que aprova sempre o mais do mesmo. Talvez se fosse exibida em outro horário a obra de Gilberto Braga, Alcides Nogueira e Sérgio Marques  tivesse se tornado um enorme sucesso, mas antes de mais nada, essa trama deve ser vista e lembrada. Quem sabe não entra na lista dos próximas reprises do Canal Viva.

No próximo Báu da TV, a última obra que tinha tudo para ser um sucesso, mas não correspondeu as expectativas.

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Comentários (11) Postar Comentário

Dia comentou:

Excelente novela, um novelão das oito exibido às seis horas. A Globo deveria lança-la em DVD, ou de repente lança-la em livro, como fez com algumas novelas no passado.

Renan comentou:

Eu adorava essa novela. Novela das 6 com cara de novelão das 9, sensacional! Curiosamente, ontem pensei nessa novela como reprise no Viva, quem sabe um dia...

Layon Maciel da Silva comentou:

Tive a felicidade de ver a novela novamente em 2005. Tinha 11 anos e pouco me lembrava dela na exibição original. Uma legítima novela de época com a perfeição de uma seda. Um cuidado que a Globo tinha na época passada com suas telenovelas.

Núbia. comentou:

E isso se a globo não resolver fazer uma Re reprise no vale a pena ver de novo em comemoração aos 50 anos da Globo, já tem algumas cotadas já pra 2015.

Leonardo comentou:

Para mim, junto com o Cravo e a Rosa, é a melhor novela das seis da Globo. Quando a Globo reprisou em 2005, eu nem acreditei.

Rute comentou:

Sem exageros, a melhor de todos os tempos

Jullio di Avlis comentou:

Novela fantástica, de uma época que se podia ter liberdade de expressão sem essa idiotice de classificação indicativa. Natalia Timberg estava fenomenal na pele da Idalina, um dos melhores papéis da atriz.

Joannes Lemos comentou:

Na minha opinião é uma das melhores novelas não só das 18h, mas de toda a história da Globo. Sem exageros! Um novelaço com muitos ganchos interessantes e tramas ricas, além da primorosa reconstituição de época. Um dos destaques, além de Natália Thimberg, foi Bárbara (Denise Del Vecchio).

Everson Lancelotti comentou:

Eu me recordo desta novela como amava , ver a Malu mader descer as escadas da casa grande na fazenda , foi uma trama linda no fim foi surpreendente saber q a assassina era a barbara , personagem defendida muito bem pela denise , acho que seria mais uma vez uma grande aposta pro defasado Vale a pena ver de novo .

alex comentou:

Realmente uma das melhores novelas feitas pela Globo - verdadeira obra prima!

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