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O Bem-Amado: uma história contada em cinco formatos

Por: Jonathan Pereira E-mail para contato: [email protected]

O Bem-Amado: uma história contada em cinco formatos

A cidade de Sucupira e seus habitantes ficaram na memória de quem assistia televisão na década de 70, e pôde ser conhecida pelos mais novos no ano passado, quando O Bem-Amado, a primeira novela totalmente em cores da TV brasileira, ganhou uma versão para o cinema.

Em 1973, Dias Gomes adaptou para a Globo a história da peça Odorico, o Bem-Amado, e os Mistérios do Amor e da Morte, criada 12 anos antes. Apesar dos tempos de censura, a trama conseguia satirizar através do humor a ditadura militar – que ficou esperta e, anos depois, grampeou o telefone do autor e não deixou Roque Santeiro ir ao ar, em 1975, baseada em uma conversa que ouviu.

Paulo Gracindo se eternizou como Odorico Paraguaçu, dono de uma fazenda produtora de azeite de dendê e candidato a prefeito. Apesar de corrupto, foi adorado pelos eleitores e pelo público, pela forma como foi interpretada pelo ator. Ele inventava parte das frases ditas pelo personagem, repetidas à exaustão pelos telespectadores de então. Quem tem parentes acima de 50 anos pode ter ouvido já na família algo como “Deverasmente” ou “Botando de lado os entretantos e partindo pros finalmentes”.

História

O que move a trama é que Odorico é eleito com a promessa de construir um cemitério – o que cumpre (!). O problema surge quando ninguém mais morre na cidade, impedindo o local de ser inaugurado. Ele põe a culpa no médico Juarez (Jardel Filho), por cuidar bem dos pacientes e o impede de namorar sua filha Telma (estreia de Sandra Bréa em novelas). Seus outros inimigos são Vigário (Rogério Fróes), a delegada Donana Medrado (Zilka Sallaberry) e Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), dono do jornal local A Trombeta.
Com a ajuda das irmãs Cajazeiras – também lembradas até hoje – ele tenta fazer com que alguém morra. Em troca faz promessas de casamento às três solteironas, sem que uma desconfie que Odorico sai com a outra. Elas são a recalcada Dorotéia (Ida Gomes), a apaixonada Dulcinéia (Dorinha Duval), e a esquentada Judicéia (Dirce Migliaccio). Dulcinéia é compromissada com o tímido, desastrado e gago Dirceu Borboleta (personagem de maior destaque da carreira de Emiliano Queiroz), secretário pessoal de Odorico, mas que só pensa em sua coleção de borboletas.

O farmacêutico Libório (Arnaldo Weiss) resolve ajudar a inaugurar o cemitério tentando cometer suicídio, mas nunca consegue. Com a volta do bandido Zeca Diabo (Lima Duarte) à cidade, Odorico lhe pede que mate alguém. Ele foi condenado por um homicídio que não cometeu e passou anos preso, transformando-se por isso em um matador. Dorotéia se apaixona por ele e tenta ensiná-lo a ler.

Desesperado pela falta de defuntos na cidade, Odorico manda trazerem da Capital um primo das Irmãs Cajazeiras que morreu de pneumonia, para ser enterrado em Sucupira. Pegando carona no caso Watergate, que explodia nos Estados Unidos, Dias Gomes criou o “Sucupiragate”, quando as escutas colocadas no confessionário da igreja a mando de Odorico foram descobertas. Com a confusão, as Cajazeiras enviam o corpo do primo para outra cidade.

Para encurtar a história, no fim o próprio prefeito é quem inaugura o cemitério. Zeca Diabo lê um jornal da Capital e descobre que havia sido preso por causa de Odorico. O matador, que havia deixado essa vida de lado, lhe dá três tiros.

Sucesso

Acostumada a gravar em preto e branco, a equipe precisou repetir algumas cenas várias vezes até que o resultado fosse aprovado pelo diretor, Régis Cardoso, devido à nova tecnologia. Aproveitando que o telespectador poderia exergar mais de duas cores, o visual da maioria dos personagens era extravagante e colorido. As irmãs Cajazeiras, por exemplo, usavam figurinos caricatos, com chapéus excêntricos. Gracindo Jr. teve até que pintar os cabelos de laranja para viver vigarista Jairo.

A novela foi a primeira a ser exportada pela Globo, fazendo sucesso em vários países. Mas a trama não escapou da censura. Em julho, a palavra “coronel”, utilizada por alguns personagens para se dirigir ao prefeito, foi proibida, assim como “capitão”, “ódio” e “vingança”, fazendo a produção apagar o áudio de vários capítulos.

Quando ainda não existia o “Vale a Pena Ver de Novo” – que foi criado em 1980 – uma versão de 60 capítulos foi reapresentada, entre janeiro e junho de 1977. O público queria mais, e o seriado O Bem-Amado estreou em 1980 e ficou cinco anos no ar, com a ressurreição do prefeito Odorico Paraguaçu, ainda interpretado por Paulo Gracindo. Outro personagem da trama que voltou anos mais tarde foi Dirceu Borboleta, na Escolinha do Professor Raimundo, nos anos 90.

Em 2010, a história chegou aos cinemas, com atores atuais. Marco Nanini interpretou Odorico, José Wilker foi Zeca Diabo, Matheus Nachtergaele esteve na pele de Dirceu Borboleta, e à Zezé Polessa, Drica Moraes e Andréa Beltrão couberam viver as irmãs Cajazeiras. O longa ganhou mais alguns minutos, foi transformado em minissérie e apresentado em 4 capítulos na Globo, em janeiro deste ano. Quem não viu a novela e o seriado, pode garimpar trechos no Youtube e fazer suas comparações.





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