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Baú da TV: O Casarão completa 40 anos

Trama inovadora para os anos de 1970 contava história em três épocas distintas.

Por: Emerson Ghaspar - Contato: [email protected]

No dia 07 de junho de 1976 ia ao ar o primeiro capítulo de O Casarão, que contava a saga de cinco gerações que habitavam o mesmo local. A trama que não era linear tinha início em 1900 seguindo até 1976. Em 1900, na cidade de Sapucaí, Deodato Leme (Oswaldo Loureiro) consegue graças a seus aliados políticos, que uma linha ferroviária seja instalada nos limites da fazenda Água Santa, de sua propriedade. Com isso será mais fácil escoar o café que é cultivado ali. Para mostrar seu grande poder, o fazendeiro constrói um enorme casarão, que servirá de locação para cinco gerações de sua família.

Deodato é casado com Olinda (Mirian Pires), a quem oprime, sempre a tratando com frieza, a fazendo buscar apoio na religião. Olinda teve uma única filha, Maria do Carmo (Analú Prestes), uma jovem que é calada diante do pai e alegre longe dele. A jovem se apaixona por Jacinto (Tony Correa), mas não consegue levar o relacionamento adiante pois graças a uma armadilha do pai, pensa que foi abandonada. Desiludida com Jacinto, Maria do Carmo acaba se casando com Eugênio Galvão (Edson França), engenheiro contratado para construir a linha ferroviária. Ao saber que Maria do Carmo casou com outro Jacinto se casa com Francisca (Ana Maria Grova). O ponto alto dessa fase 1910 é a morte de Deodato que acaba vítima de uma emboscada preparador Eugênio, que assume o poder político da região.

Casada com Eugênio, Maria do Carmo vive um casamento infeliz e acompanha o marido em todas as viagens, mesmo estando doente, ao mesmo tempo vê sua filha Carolina (Sandra Barsotti) se envolver com João Maciel (Gracindo Junior), filho de Afonso (Lutero Luiz), capataz da fazenda. O relacionamento de João Maciel e Carolina não é bem-visto e ele resolve ir para a capital em busca de novas oportunidades. Sentindo-se abandonada pelo amado, a jovem cede aos encantos de Atílio (Dennis Carvalho), filho de Jacinto e Francisco e acaba se casando com ele, já que a família de Carolina está à beira da falência devido à quebra da bolsa de valores de 1929. Essa fase é de 1926 a 1936.

Ambientada em 1976 (atual) a trama mostrava o declínio e o fim da família de Carolina, que perde tudo o que tem. A fazenda Água Santa já não é a mesma e só possui um terço do que já foi um dia. Cada vez, mais decadentes, Atílio (Mario Lago) e Carolina (Yara Cortês) vivem um casamento calmo, com ele sempre em estado de nostalgia, recordando dos tempos áureos, enquanto a fazenda se degrada cada vez mais. Enquanto isso, Carolina ainda é altiva e guarda sempre recortes com tudo sobre João Maciel (Paulo Gracindo), que agora é um artista plástico famoso e que retorna a cidade, fazendo renascer uma grande paixão.

Com a derrocada da família, os filhos de Atílio e Carolina decidem transformar a fazenda em um loteamento. A surpresa maior fica sob a notícia de que uma nova linha férrea passará no exato local em que está o casarão. Após a morte de Atílio, Carolina se encontra com João Maciel, dando uma nova chance para o seu amor, 40 anos depois.

O Casarão teve como mote central o teleteatro A Estátua de Lauro César Muniz, que havia sido apresentado pela TV Excelsior em 1961 e posteriormente gerado uma peça em 1966, intitulada A Morte do Imortal. Com a novela, o próprio autor afirmava fechar um ciclo iniciado com Os Deuses Devem Estão Mortos (TV Record/1971), seguido por Escalada (TV Globo/ 1975).

A trama apresentava uma trama não linear, trocando o que acontecerá” pelo “como aconteceu”, permitindo que dois atores vivessem o mesmo personagem em épocas distintas. Em sua estreia a novela causou estranheza ao telespectador que não entendeu o enredo e sua linguagem, por causa disso houve uma reprise do primeiro capítulo as 23h, no mesmo dia.

Destaques para as atuações de Paulo Gracindo, Yara Cortês, Mario Lago e Renata Sorrah. O ator Paulo Gracindo foi disputado por Walter Avancini e Dias Gomes que o queriam na novela das dez: Saramandaia. O ator acabou aceitando o convite de Daniel Filho para estrelar O Casarão.

Faltando somente três dias para sua estreia, houve um incêndio nos estúdios da Rede Globo e várias cenas de O Casarão tiveram que ser gravadas nos estúdios Hebert Richards. A cidade cenográfica de O Casarão foi construída ao lado de Saramandaia e inúmeras vezes tiveram suas cenas paradas porque havia interferências vinda da outra. Na ocasião tentavam gravar as sequências em que Dona Redonda (Wilza Carla) explodia depois de tanto comer.

Criado pelo cenógrafo Mario Monteiro, foi desenvolvido em Guaratiba, no Rio de Janeiro, várias fachadas para reproduzir as três épocas ambientadas na trama. Era possível gravar os tempos diferentes tudo no mesmo dia, embora o casarão que dá origem ao título só pudesse ser enquadrado de frente.

A cena final de O Casarão é considerada uma das belas da dramaturgia nacional. Na sequência, Carolina (Yara Cortês) encontra com João Maciel (Paulo Gracindo) e pergunta se está atrasada. Ele responde “40 anos”, referindo-se ao tempo que havia passado desde que tinham combinado de fugir. A sequência foi gravada na tradicional Confeitaria Colombo, no Rio de Janeiro.

O Casarão tinha um entrecho feminista, mostrando o espaço da mulher durante as fases, o que levou a Censura a intervir na trama de Lina (Renata Sorrah), neta de Carolina (Yara Cortês), que decidia abandonar o marido Estevão (Armando Bógus) para ficar com Jarbas (Paulo José), após conhecê-lo durante uma viagem. O autor teve que mudar o destino da personagem que deveria se divorciar do marido para depois se apaixonar por outro homem. A personagem também não poderia usar anticoncepcionais.

A Censura Federal também interveio nos destinos de outros personagens: Aldo (Marcelo Picchi), Padre Milton (Nilson Condé) e Vânia (Bete Mendes), que tiveram sua participação reduzida. Na primeira fase o autor não pode mostrar as atividades do PRP (Partido Republicano Paulista), nem mostrar os desmandos de grandes fazendeiros. Além disso as palavras ceroulas, prenhe e parir tiveram que ser cortadas do roteiro.

O Casarão foi eleita a melhor novela de 1976 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o que ressaltou que era uma novela de prestígio e não popular, já que o público entendeu o básico da trama.

As habituais trilhas sonoras da Rede Globo (nacional e internacional) tinham em suas capas imagens do local em que a trama era ambientada, o tal casarão e com imagens do elenco. O álbum nacional tinha o sucesso Fascinação, na voz de Elis Regina, que ficou marcada como tema da novela. Ainda havia as músicas Latin Lover/ João Bosco, Menina Do Mato/ Márcio Lott, Carolina/ Aquarius, Quibe Cru/ Chico Batera, Só Louco/ Gal Costa, Nuvem Passageira/ Hermes Aquino, Coisas Da Vida/ Rita Lee, Tangará/ Coral Som Livre, A Dor A Mais/ Francis Hime, Capricho/ Nara Leão, O Casarão/ Dori Caymmi e Retrato/ Suely Costa.

O álbum internacional continha as seguintes músicas: Hands Of Time/ Perry Como, Theme From S.W.A.T./ Music Corporation, Forever Alone/ Steve McLean, I Need To Be In Love/ Carpenters, Call Me/ Andrea True Connection, Angel/ Jullian, When You’re Gone/ Maggie McNeall, Living/ Alain Patrick, I’m Easy/ Keith Carradine, My Life/ Michael Sullivan, Honey/ Abba, Girl Of The Past/ Peter McGreen, California Dreamin’ / The Vast Majority, Miss You Nights/ Cliff Richard, Nostalgia/Francis Goya e Sharing The Night Together/ Arthur Alexander.

O Casarão além da versão original foi exibido em duas outras ocasiões: em 28/01/1980 em forma de telefilme em um especial de 1h30 dentro do festival em comemoração aos 15 anos da Rede Globo apresentado por Yara Cortês. A novela também foi exibida de forma compacta entre 21/03 e 09/04 de 1983 devido a antecipação do fim de Sol de Verão, devido a morte de Jardel Filho. Como a novela substituta, Louco Amor de Gilberto Braga não estava pronta, a solução foi exibir a trama de forma compacta.

Exibida entre 7 de junho e 11 de dezembro de 1976 em 168 capítulos, O Casarão foi escrito por Lauro César Muniz e teve a direção de Daniel Filho e Jardel Mello, com co direção de Marco Aurélio Bagno. Em uma época de possíveis inovações menores que as atuais, O Casarão é uma ousadia por contar três histórias interligadas pelo mesmo local e que de alguma forma permite a nossa teledramaturgia se reinventar, assim como feito em 1974 com O Rebu e outras tramas posteriores. Merece uma reprise pelo canal Viva ou um remake, mas sem perder a essência dinâmica.





Comentários (4) Postar Comentário

Vlad comentou:

Não se pode esquecer, entretanto , que , como foi lembrado, esta novela não foi popular. A TV Tupi exibia à época Xeque Mate, que mobilizou parte da audiencia , então já monopolizada pela Globo.


Vlad respondeu:

Ressaltando: Xeque Mate foi um sucesso da TV Tupi exibido na mesma época....


Oliveira comentou:

foi através dessa novela que a atriz Sandra Barsotti despontou para o estrelato, sendo ao final desta novela indo para a TV Tupi fazer a novela Um Sol Maior.


Vlad respondeu:

Exato!!!! e só ficou por lá nessa novela. A Tupi já caminhava para a derrocada final, mas antes ainda teve outro grande sucesso: O Profeta...... e quando parecia dar sinais de ressucitar, eis que tudo desandou e ela chegou ao fim em julho de 1980......lamentável!!


Danilopes comentou:

Também foi destaque o ator português Tony Correia, que depois do Casarão ainda fez Locomotivas.

Goytá comentou:

Com o devido desconto de que eu tinha 15 anos de idade na época, lembro que eu achava a novela pretensiosa, confusa e arrastada. Acho que não mudaria muito minha opinião hoje, mais de quatro décadas depois. A novela de fato foi muito ousada para a época, mas só ousadia não garante um resultado satisfatório. A novela não foi muito popular não foi só por causa da narrativa não linear - o público não é tão burro assim e após algum estranhamento inicial, entendeu bem o esquema. Era mais porque a novela era chata, mesmo.
Não acho que ritmo frenético seja necessário e até valorizo tramas introspectivas, mas "O Casarão" era arrastada DEMAIS - especialmente a fase de 1976, as antigas eram até razoavelmente movimentadas. Lembro que havia loooooooongas cenas só com a Carolina (Yara Cortes) ou a Violeta (Aracy Balabanian) curtindo suas crises existenciais na varanda do casarão. Ninguém aguentava.
Agora, a cena final realmente foi uma obra-prima de sensibilidade e delicadeza. Só não se derrete com aquela cena quem for um monstro com coração de gelo. Só os olhares PERFEITOS do Paulo Gracindo e da Yara Cortes já seriam um espanto, mas a edição, o enquadramento e o contexto da história se juntaram para fazer um momento mágico e absolutamente antológico da TV brasileira. O vídeo da cena está disponível na Internet, procurem. Vale a pena.

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