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Corpo a Corpo: ascensão social e vingança no horário nobre

Gilberto Braga conquistou os telespectadores com trama envolvente, tendo o diabo como peça fundamental.

Por: Emerson Ghaspar - Contato: [email protected]

No dia 21 de junho de 1985 ia ao ar o último capítulo de Corpo a Corpo, trama escrita por Gilberto Braga para o horário das 20h da Rede Globo. A trama narra a saga de Eloá (Débora Duarte), uma mulher ambiciosa, disposta a tudo pela ascensão social e profissional, nem que para isso tenha perder o grande amor de sua vida.

No primeiro capítulo da trama, Eloá fica desapontada por não ter conseguido uma promoção na empresa em que trabalha. Enquanto a protagonista fica muito frustrada, seu marido Osmar (Antônio Fagundes), que trabalha na mesma empresa que ela, não mostra ter grandes ambições e isso é um contraste gritante entre ambos.

Ainda nesse capítulo, Eloá vai a uma festa onde conhece o misterioso Raul (Flávio Galvão), um homem misterioso que seria a personificação do demônio e faz um acordo com ele, que promete transformar sua vida para melhor, fazendo com ascenda profissionalmente e isso é o que gera grande crise em seu casamento.

Aos poucos, Eloá vai subindo de posição na empresa do milionário Alfredo Fraga Dantas (Hugo Carvana), um homem autoritário e severo, que fica viúvo no primeiro capítulo. Após perder a esposa, o empresário começar a interferir na vida de seus três filhos: Olavo (Marcelo Picchi), o mais certinho que tenta agradar o pai de todas as formas, assim como sua esposa Margarida (Lilia Cabral), uma eterna puxa saco do sogro; Beatriz (Malu Mader) uma estudante de Comunicação inconformada com as injustiças e que bate de frente com o pai e Cláudio (Marcos Paulo), que é o filho predileto do empresário mas que possui um espirito inquieto.

Foto: Cedoc/TV Globo

Para cuidar do filho predileto, Alfredo contrata a enfermeira Tereza (Glória Menezes), uma mulher de pulso firme e amável que ficou viúva muito jovem e faz de tudo pela filha Heloisa (Isabela Garcia), uma jovem interesseira e voluntariosa. Aos poucos, a enfermeira vai colocando ordem na casa de Alfredo e acaba despertando o interesse do empresário. Mas Tereza tem uma forte rival na disputa pelo coração do milionário: a falida Lucia Gouveia (Joana Fomm), que tenta enriquecer através de casamentos. Ela deseja que sua filha Alice (Luiza Tomé) também arrume um casamento milionário. Lucia esconde que no passado foi casada com Amauri (Stenio Garcia), irmão de Osmar e ex- presidiário que ainda a ama e fará de tudo para reconquistá-la. No decorrer da trama, Amauri enriquece ao criar um chip para computadores e se torna mais obcecado em reatar seu casamento com Lucia, que a essa altura já se casou com Alfredo.

Apesar de toda amabilidade, Tereza não esquece que no passado se envolveu com Osmar, que preferiu Eloá a ela. A enfermeira sonha em destruir o amado e a oportunidade para que isso acontece quando ela conhece a Raul, a quem se se alia em um plano de vingança, que pretende afastar Osmar da esposa.

Com a ajuda do “Diabo”, Eloá consegue posição de destaque na empresa, chegando a presidente da Fraga Dantas Internacional, mas para isso é obrigada a demitir Osmar, após ser chantageada pelo misterioso Raul. A protagonista então se muda para o Cairo com o filho. Paralelo a isso, Raul promete fazer Osmar se apaixonar por Tereza, caso ela mate Alfredo Fraga Dantas. A enfermeira chega a preparar uma injeção letal para aplicar no milionário, mas desiste da ideia.

Disposta a contar tudo para Osmar, Tereza procura por Osmar e revela que foi ela quem armou com Raul para destruir seu casamento com Eloá. A enfermeira percebe que seu amado realmente gosta de Eloá e decide se afastar dele.

Osmar decide investigar qual interesse de Raul em acabar com sua família e com Alfredo Fraga Dantas. Ele consegue o apoio de Eloá, que retorna, cansada de ser atormentada pelo “Diabo” que não a deixa em paz. No último capítulo, Osmar descobre que tudo não passou de uma armação de Amauri, que queria separar Lucia de Alfredo e por isso armou tudo, em uma trama engenhosa e macabra. Em uma das cenas memoráveis da trama está a morte de Amauri e Lucia no último capítulo. No final, Tereza se acerta com Alfredo e Osmar e Eloá reatam o casamento.

Paralela trama central, havia o romance entre Beatriz e Rafael (Lauro Corona), um rapaz humilde que se mudava para o Rio de Janeiro após a morte do pai, vítima de uma enchente. Rafael se muda com a mãe Guiomar (Eloísa Mafalda) e com a noiva Ângela (Andréa Beltrão) e tenta se restabelecer. Rafael e Beatriz vivem um romance cheio de idas e vindas.

Outro casal que mobilizou o público foi Cláudio e Sônia (Zezé Motta), uma negra de família classe média que envolve com o filho do milionário Fraga Dantas. Devido as diferenças sociais de classe social e de raça, a moça acaba cedendo e termina o romance. Em uma reviravolta, Alfredo precisa de uma transfusão de sangue e é exatamente Sonia quem doa e salva a vida do ex-sogro.

Gilberto Braga cativou o telespectador com uma trama bem construída e com reviravoltas. O autor utilizou dramas femininos para prender a atenção do público: a mulher vingativa (Tereza), a discriminada racialmente (Sônia) e um contraponto entre a mulher que busca a ascensão social e profissional (Eloá) e a que se mantêm financeiro devido a um casamento onde o homem é o provedor (Lúcia).

O ponto forte da trama foi o pacto de Eloá com o Diabo, despertando grande interesse do público. Corpo A Corpo foi gravada nos estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro. No primeiro capítulo há uma enchente onde uma casa é destruída e acaba matando Machado (Turíbio Ruiz). A partir disso sua família muda-se para o Rio e desenvolve outra trama. Para essa sequência de inundação que demorava exatos 20 segundos, a equipe de cenografia escavou um buraco de 9,5 m de comprimento por 6 m de largura e 1,6 m de profundidade, com o fundo e as laterais vedados com plástico. 20 carros-pipa foram necessários para simular um temporal. 

A sequência demorou dois dias para ser realizada. O fato envolvendo enchente havia realmente acontecido no ano de 1983 em Blumenau, Santa Catarina e o autor resolveu inserir na trama.

Foto: Cedoc/TV Globo

Destaque para as interpretações de Flávio Galvão como a personificação do Diabo; Débora Duarte como Eloá que vinha de grandes sucessos, entre eles Anarquistas, Graças a Deus e Padre Cicero e Stenio Garcia pelo atormentado Amauri. O ator inspirou-se em Fausto de Goethe para criar o personagem. Apesar de grandes interpretações quem roubou a cena foi Joana Fomm com sua vilã Lucia Gouveia. A atriz chegou a dizer que o público confundia personagem com interprete e que chegou a ser hostilizada.

Corpo A Corpo foi a primeira novela de Andréa Beltrão, Luiza Tomé, Selton Mello e Lilia Cabral (Selton e Lilia vinham de trabalhos feitos na TV Bandeirantes). A atriz Eloísa Mafalda emendou Corpo A Corpo com a trama posterior: Roque Santeiro.

Os atores Marcos Paulo e Antônio Fagundes quase que não puderam participar da trama. Na ocasião, Antônio Fagundes estava de viagem marcada para Nova York, onde iria participar de um curso por um mês. O autor então propôs que ele gravasse as cenas de um mês de novela antes de partir. O ator então gravou suas cenas antes de todo mundo. Já o ator Marcos Paulo havia sido convidado para ser um dos diretores de Armação Ilimitada, mas teve que desistir do projeto porque era nesse momento que seu personagem ganhava mais destaque na trama.

O romance entre Sônia (Zezé Motta) e Cláudio (Marcos Paulo) causou polêmica e não foi bem visto pelo público que rejeitou a trama. O ator Marcos Paulo chegou a receber mensagens ofensivas em sua secretária eletrônica.

Devido ao sucesso da trama, a linha de cosméticos Davene lançou uma linha de produtos com o nome da novela. A abertura da novela é um reaproveitamento da minissérie Meu Destino é Pecar, exibida no primeiro semestre de 1984. Corpo A Corpo foi uma das primeiras novelas a utilizar um efeito de congelamento no fim do capítulo. Havia um efeito também que foi inserido quando ia para o intervalo comercial.

Corpo A Corpo teve dois álbuns: a trilha sonora nacional e internacional, mas ninguém do elenco estampou o LP. No disco nacional continha as seguintes músicas: Um Grande Amor /Fagner, Corra e Olhe o Céu /Beth Carvalho, Nada Mais (Lately) / Gal Costa, Onde é que a Gente Vai? /Dalto, Para Lennon e Mccartney /Elis Regina, Papel Marchê /João Bosco, Tão Beata, Tão à Toa / Marina, Pra Eu Parar de Me Doer /Maria Bethânia, Sorvete / Caetano Veloso, Um Desejo Só Não Basta / Simone, Baby Suporte / Barão Vermelho, Férias de Verão /Sandra Sá, A Mulher Invisível / Ritchie e Dê um Rolê / Zizi Possi. A canção Coração de Estudante, em versão instrumental, apareceu na trama, mas não fez parte do LP.

A trilha internacional continha as seguintes músicas: Too Late For Goodbyes / Julian Lennon,
Still Loving You /Scorpions, Body Rock /Maria Vidal, What About Me? / Kenny Rogers, Kim Carnes and James Ingram, Sex Appeal /Sophie St. Laurent, Autumn /Season of Love, Taste So Good /File 13, Purple Rain /Prince & Revolution,  Missing You /Diana Ross, I Feel For You /Chaka Khan, Edge of a Dream /Joe Cocker, Make No Mistake, He’s Mine /Barbra Streisand and Kim Carnes, Bonita /Maysa e Agadoo /Black Lace.

No livro, Autores, História da Teledramaturgia, da Editora Globo, Gilberto Braga comenta sobre a trama: “A novela foi bem e eu sempre pensei: Porque falam de Dancin’ Days e Água Viva quando citam os meus sucessos e não falam de Corpo A Corpo? Era uma novela extremamente bem-feita, com uma trama bem amarrada, baseada em histórias de ascensão e vingança, com Débora Duarte, Antônio Fagundes, Glória Menezes, Joana Fomm, Hugo Carvana.... Até hoje, é muito elogiada por escritores. Sempre encontro algum escritor de novela que elogia Corpo A Corpo. Talvez o público não se lembre tanto da novela porque não tinha como protagonista uma estrela tradicional, como Sônia Braga em Dancin’ Days.”

Corpo a Corpo foi vendida para aproximadamente 18 países, mas apesar de seu sucesso nunca foi reprisada no Vale a Pena Ver de Novo ou pelo Canal Viva. A trama foi escrita por Gilberto Braga com colaboração de Leonor Bassères e foi dirigida por Jayme Monjardim e Dennis Carvalho. Foi a primeira novela da parceria entre Gilberto Braga com o diretor. A novela teve 179 capítulos exibidos entre 26/11/1984 a 21/06/1985, às 20h. Sem sombra de dúvidas, Corpo a Corpo merece sua atenção, já que é uma trama empolgante e inteligente e, como foi no passado, seria um grande sucesso nos dias de hoje.





Comentários (5) Postar Comentário

Carlos Luiz de Oliveira comentou:

Na minha opinião e da maioria dos críticos, o melhor texto de Gilberto Braga. Como depois dela veio o fenômeno Roque Santeiro, talvez tenha sido por isso que a novela passa até hoje despercebida, já que Roque Santeiro praticamente parava o Brasil todas as noites em 85. Mas a novela fez sim muito sucesso e gerou muitas polêmicas, que , ao contrário de Babilônia, só chamou mais ainda a atenção do público da época. Lembro que eu ficava com medo, devido a algumas cenas com o tal "Diabo" e me lembro que assim que o último capítulo acabou, entrou a âncora do Jornal da Globo, fazendo a chamada para o telejornal e dizendo que a novela tinha mexido com a cabeça de muita gente e que teria uma entrevista com alguns atores da trama, inclusive com o Diabo! Merece ser reprisada pelo Viva ou pela própria Globo. É uma verdadeira jóia rara essa novela!

Vlad comentou:

Carlos Luiz, antes de ler seu comentario eu tinha a mesma opiniao: Roque Santeiro ofuscou a lembrança de Corpo a Corpo, mas me lembro de que esta novela foi um sucessão. Uma pena que até o dono deste blog, desconhecedor disso, nao goste do mestre Gilberto Braga. Este, sim, era popular sim, e muito aclamado, ao contrário de "algumas" opinioes contrárias. Quem sabe um dia , mais bem informado, ele reveja suas opinioes. abraço

geisy arruba comentou:

Depois de tantos sucessos Gilberto Braga desaprendeu a escrever e ficou ignorante criticando os paulistanos que não tem nada a ver com sua falta de criatividade.

michel comentou:

Lembro dessa novela, e foi a melhor escrita pelo Gilberto. Embora o tema do diabo tenha causado polêmica - inclusive, houve um movimento religioso contra a obra - a novela foi marcada por ser uns dos melhores trabalhos de Glória Menezes, que tinha saído de uma fase de novelas cômicas, para dar vida a uma personagem que tinha um quê de dupla personalidade. Não sabíamos se ela era boa ou ruim. Na metade da novela, houve uma grande virada. Glória foi indicada ao Troféu Imprensa daquele ano, mas perdeu para Georgia Gomide, que brilhou em VEREDA TROPICAL. Porém o trabalho de Glória em CORPO A CORPO, foi estupendo. Joana Fomm também se destacou


Gustavo respondeu:

A Glória Menezes não concorreu ao Troféu Imprensa por "Corpo a Corpo". As três indicadas foram Lucélia Santos, Maria Zilda Bethlem e Geórgia Gomide (vencedora), as três por "Vereda Tropical".


Hugo comentou:

Grande novela que infelizmente tornou-se esquecida mesmo sendo um sucesso, ótima trama, texto e um grande elenco, porém acredito que realmente deveriam ter escolhido uma outra atriz para fazer o papel da Débora Duarte, nada contra essa atriz, mas o papel merecia uma atriz de renome como por exemplo Betty Faria ou Suzana Vieira.

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