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Baú da TV: As Filhas Da Mãe completa 15 anos

Trama de Sílvio de Abreu relatava em seu mote central o reencontro de uma família, tudo em um tom de comédia rasgada.

Por: Emerson Ghaspar - Contato: emerson.ghaspar@hotmail.com

No dia 27 de agosto de 2001, o público era apresentado a Incrível História Das Filhas Da Mãe Nos Jardins Do Éden, que narrava o retorno de Lucinda (Fernanda Montenegro) ao Brasil disposta a reencontrar seus filhos e desvendar o sumiço de seu marido, o empresário Fausto Cavalcanti (Francisco Cuoco).

A trama tem início no Rio de Janeiro dos anos de 1960, quando Lucinda (Fernanda Torres) conhece os amigos Arthur (Henrique Taxman) e Fausto (Cláudio Lins), amigos e sócios. A jovem se apaixona por Arthur, mas ele se esquiva de qualquer relacionamento mais sério e duradouro.  Obcecado por Lucinda e rivalizando com Arthur, Fausto a pede em casamento e ela aceita.

Após o casamento, Fausto mostra seu real caráter e exige que Lucinda abandone sua carreira e cuide exclusivamente da casa e dos filhos: Alessandra, Tatiana e Ramon.  Disposta a seguir com sua carreira, a antiga paixão de Arthur vai trabalhar com um famoso decorador, que totalmente apaixonada por ela tenta agarrá-la. Desesperada, Lucinda empurra o patrão da escada em legitima defesa e ele acaba morrendo.

Sem saber o que fazer, Lucinda pede ajuda a Fausto, que colhe provas contra ela e a chantageia: ou vai embora ou vai entrega-la a policia. Desesperada, a jovem foge para a Europa, enquanto o vilão simula a morte da esposa.  A partir disso, a relação de Fausto com os filhos se torna insuportável e ele adianta parte da fortuna e cada um toma um rumo.

2001. Lucinda agora é Lulu de Luxemburgo, famosa diretora de arte ganhadora de 8 Oscars, mas que não esqueceu os filhos, nem do marido algoz. Fausto vive sozinho, cercado por Margot (Jaqueline Lawrence), a governanta e pelo ambicioso Adriano (Thiago Lacerda), afilhado do empresário e grande vilão da trama.

Arthur (Raul Cortez) continua sendo sócio de Fausto e já foi casado inúmeras vezes e tem dois filhos: Leonardo (Alexandre Borges), um machista incorrigível e Ricardo (Reynaldo Gianecchini), um modelo famoso, romântico incurável que se apaixona por Dagmar (Claudia Jimenez), uma atriz que faz shows no bingo de Manolo, mas que não desperta interesse de ninguém.  

 Arthur ainda é noivo de Valentine (Lavínia Vlasak), uma jovem ambiciosa, que se une a Adriano em seus planos rumo a presidência do maior investimento de Fausto, o resort Jardim do Éden.

 Além de Arthur, Fausto tem como sócio no resort, o cubano Manolo Gutierrez (Tony Ramos), fã de Elvis Presley, dono de um bingo e que morre de amores por Aurora (Cláudia Ohana), uma mulher sensual, porém sem instrução, que fala tudo errado. A relação de Manolo e Aurora tem como maior obstáculo a avó dele, a misteriosa Gorgo (Cleyde Yáconnis), que vê o futuro nas águas e que faz de tudo para separá-los. Para ajudar a esposa a obter bons modos, Manolo contrata o serviço de Webster, um ator de carreira estagnada, que cuida da casa e filhos, enquanto a esposa Maria Leopoldina (Virginia Cavendish) traz o sustento para dentro de casa.

Bete Coelho e Andrea Beltrão. Foto: Globo

No início da trama há uma grande revelação, quando Fausto pede a Manolo que cuide de sua filha bastarda, a nordestina Rosalva (Regina Casé), fruto de seu verdadeiro amor do passado. Mas o clima entre Rosalva e Manolo não é dos melhores, desde que ele traz seu marido para trabalhar e morar na vila onde mora. No primeiro capítulo, Edmilson (Edson Celulari), marido de Rosalva morre em um acidente na linha férrea, a deixando sozinha para criar os quatro filhos do casal.  Rosalva culpa Manolo, mas os desentendimentos deles não se aplicam aos filhos, já que Joana (Priscila Fantin) e Diego (Mario Frias) se apaixonam.

Há uma grande reviravolta na trama quando Fausto aplica um golpe nos sócios e desaparecendo em seguida. O empresário acaba transferindo milhões de dólares para o nome de Rosalva no exterior e deixando o resort Jardim do Éden em péssima situação.

Ao saber do desaparecimento de Fausto, os filhos legítimos retornam para lutar por sua herança.  Tatiana (Andrea Beltrão) que foi para Londres na expectativa de ser diretora de cinema, gastou todo dinheiro dado pelo pai e agora vive vendendo pipocas. Já Alessandra (Bete Coelho), foi para Roma para ser escritora, mas não escreve nada, só algumas páginas sem nexo, seu grande objetivo mesmo são os homens. Tatiana e Alessandra desde criança são inimigas, mas curiosamente pensam exatamente igual. E pensando assim, elas resolvem voltar ao Brasil depois de saber do desaparecimento do pai e lutar pela presidência do Jardim do Éden, o que acabam conseguindo.

Claudia Raia em cena. Foto: Divulgação/Globo

Quem acaba retornando também Ramon, que agora se chama Ramona (Cláudia Raia), que fez uma cirurgia de troca de sexo e desperta a ira das irmãs que desconfia que ela seja uma farsante. Ramona também desperta a atenção em Leonardo, o filho machista de Arthur, que sempre a infernizou quando criança. Ramona é a única filha talentosa de Lulu e a melhor das três.

Disposta a reconstruir sua família, em busca do amor das filhas, Lulu volta ao Brasil acompanhada de sua fiel escudeira Milagros Quintana (Patrycia Travassos), uma mexicana que no passado foi uma importante estrela mirim em seu pais. Sem revelar sua verdadeira identidade, Lulu aproxima das filhas e de Arthur, tentando recuperar o tempo perdido. Na reta final da trama, Fausto reaparece, mas é assassinado. Ao fim se descobre que a assassina era Margot, sua cumplice.

Depois de 8 anos, Silvio de Abreu voltava ao horário das 19h, que o consagrara anteriormente para escrever As Filhas da Mãe, uma trama com a proposta de comedia rasgada, bem ao estilo que construíra com Jorge Fernando nos anos 80. A intenção da trama, que tinha como subtítulo – A Incrível Batalha das Filhas da Mãe nos Jardins do Éden se aproximava do que seria um cordel sulista paulistano. Para isso foi inserida na trama raps que descrevia o que acontecia na trama e explicava ações.

Apresentando uma linguagem nova, com uma edição considerada ousada, As Filhas da Mãe causou certa estranheza inicial no telespectador médio, que não entendia bem a trama, o que logo se repercutiu na audiência da trama, que ficou abaixo do esperado.

 A trama tinha previsão de acabar depois do carnaval de 2002, foi encurtada e terminou em janeiro. A emissora alegou que na verdade tudo fazia parte da proposta inicial de não estrear as novas novelas das 6 e 7 na mesma época. Em entrevistas, o autor Sílvio de Abreu alegou que houve incidentes externos que não permitiram que o público interessasse pela trama, entre eles o sequestro da filha do apresentador e dono do SBT, Silvio Santos e os atentados de 11 de setembro.

As Filhas da Mãe foi escrita para um elenco pré-escalado e aprovado pela direção, com base nas características físicas e particulares de cada um. A trama teve problemas com o Ministério da Justiça que não queria liberar a novela para o horário das 19h, devido ao personagem Ramona.

Foi construído no Projac, o bairro principal da trama, a Vila Havana. Já em Vargem Grande no Rio de Janeiro foi erguido o resort Jardim do Éden, numa área de 12 mil m2. A trama também teve cenas gravadas em Los Angeles, Las Vegas, Londres e Roma.

Com personagens bem definidos, foram criados figurinos exclusivos para a cada personagem tendo como referência personalidades de todo mundo. O figurino de Tatiana e Alessandra tinham como referência o punkchique; Manolo era o típico latin lover brega que abusava de cores e de costelas a lá Elvis Presley; Valentine tinha um figurino que muito lembrava Audrey Hepburn e Givenchy; Arthur era uma releitura de Fred Astaire, Leonardo tinha visual inspirado em John – John Kennedy; Milagros tinha como referência Frida Khalo e Almodóvar e Lulu tinha muito de Peggy Guggenheim, colecionadora de artes.

Apesar de várias referências, o figurino mais inspirado foi o de Ramona, que teve quatro estilistas de estados distintos, aliados a Cao Albuquerque em sua confecção. A personagem só usava peças orgânicas e para aumentar a feminilidade da personagem Cláudia Raia, suas vestimentas eram repletas de vestidos, fendas e mousselines.

Os figurinos de Tatiana e Alessandra viraram roupas de boneca, inaugurando o projeto Susi Dramaturgia. Também foi lançado o jogo Bingo do Manolo.

Silvio de Abreu voltou a abordar o tema de troca de papeis impostos pela sociedade. Na trama, Diego tinha inclinações artísticas e Joana era praticante de luta livre. O autor já havia abordado o tema em Cambalacho de 1986, onde havia um bailarino (Edson Celulari) e uma mecânica (Débora Bloch).

A trama também abordou a transexualidade através de Ramona A atriz Cláudia Raia teve receios de polêmicas a respeito do personagem, mas foi surpreendida com a aceitação e o sucesso da personagem.

A abertura de As Filhas da Mãe apresentava bonecos marionetes, manipulados por membros da companhia teatral O Navegante, em um palco que tinha cinco painéis ao fundo representando diversas regiões do Brasil.

Exibida com sucesso em Portugal por duas vezes, As Filhas da Mãe teve problemas para ser vendida a demais países devido aos raps que em outras línguas perdiam o sentido.

Destaque para interpretações de Claudia Ohana (Aurora), Manolo (Tony Ramos), Milagros (Patrycia Travassos), Lulu (Fernanda Montenegro) e  Claudia Raia por sua concepção magistral como Ramona.

A trilha sonora de As Filhas da Mãe contou com dois álbuns (nacional e internacional), sendo o nacional estampado pelo logo da novela e o internacional com Reynaldo Gianecchini, interprete de Ricardo Brandão.  O álbum nacional continha as seguintes musicas: Ela é Bamba/ Ana Carolina, Acima do Sol/ Skank, Odara/Lulo, Primavera/ Maria Bethânia, Sem Parar/Gabriel O Pensador, Dream/John Pizzarelli, Janela Indiscreta/ Lulu Santos, São PauloSP/Fernanda Abreu, Os Olhos Do Meu Amor/Sylvia Massari, Orora Analfabeta/ Exaltasamba, You Dont Know Me / B.B King, Mero Detalhe/ Lenine, Fuck The Fashion/ Vinny, Dancing In The Dark/ Diana Krall, Vai Pegar/Zé Ricardo e Alô Alô Brasil/ Eduardo Dusek.

O álbum internacional: Mirame A Los Ojos/Paulina Rubio/ When You Told Me You loved Me/ Jessica Simpson, Me Myself &I / Jive Jones, Emotion/Destiny’s Child, Baila Sexy Thing/ Zucchero, I Believe InYou/Joe, Eternal Flame/ Atomic Kitten, Your Song/Billy Paul, Dance Anymore/Double You, Pra Você Eu Digo Sim (I Fell)/Rita Lee, Se Nos Muere El Amor/Ricardo Arjona, Addicted To Love/Adriana Mezzadri, Colo De Menina/Rastapé, Selfish/N’Sync, Heroe/Enrique Iglesias e The Land/Ibiza.

Escrita por Silvio de Abreu em colaboração com Alcides Nogueira, Bosco Brasil e Sandra Louzada, As Filhas da Mãe teve em sua direção Marcel Travesso, Marcus Alvisi e Jorge Fernando. Foi exibida entre 27/08/2001 e 19/01/2002 em 125 capítulos as 19h.

Ousada, criativa, divertida e inteligente, As Filhas da Mãe é o exemplo clássico de novela errada, na época errada. Sua trama ainda não estava pronta para cativar o telespectador, hoje mais propenso ao novo.  Talvez exibida hoje, pudesse ser o grande sucesso que foi em Portugal.  Merece uma reprise, apesar de que duvido que o façam. Fica saudosamente na mente de quem a viu.





Comentários (7) Postar Comentário

Alessandro comentou:

Novela primorosa! Acompanhei com prazer essa injeção de ânimo no horário. As várias tramas de destaque costuradas pelo rap e pela literatura de cordel. Elenco afiado, era o mais caro da época, bem como a novela mais cara tb. Ousada, bem-produzida e interpretada. Pena que não caiu no gosto popular. Em contrapartida, isso trouxe algo de bom: foi encurtada e a novela terminou no auge, enxuta. Palmas para a dupla Sílvio de Abre e Jorge Fernando (saudades dos 2 juntos) , Tony Ramos e Cláudia Ohana (impagáveis como Manolo e Aurora), Cláudia Raia e sua mocinha transexual e todo o elenco magistral. Merecia uma segunda chance.

jardelia montreall comentou:

não foi uma novela de sucesso,ninguém se lembra,o elenco era ótimo por sinal,mas a novela foi seguindo rumos que não agradou o telespectadores não foi uma novela pra se dizer "nossa que novela boa" foi apenas só mais uma novelinha.

Fernando comentou:

Novela bem costurada e bem estruturada, porém mal compreendida pelo público.

Lucify comentou:

Esta novela é uma jóia si se compara com lixios como A Regra Do Jogo, Alem do Horizonte, e muitas outras

Clara comentou:

Na minha opinião, foi uma das piores novelas da tv brasileira, verdadeiro fracasso de audiencia e crítica.

Televisivo comentou:

"As Filhas da Mãe" é muito superior ao que temos hoje em dia no horário. Eu acompanhei em 2001 na íntegra e achava a novela divertidíssima e muito boa. O público realmente não embarcou na história tresloucada e inovadora do Silvio de Abreu, acredito que se passasse hoje, teria emplacado, tanto quanto "Totalmente Demais" e "Haja Coração".

Lucas Y comentou:

Há um erro: quem matou Fausto não foi Margot, e sim, Valentine (Lavinia Vlasak) por engano, pensando que havia matado Adriano.

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