
Nova aposta da Globo para o horário nobre, A Força do Querer vai investir nas características elementares do folhetim, mas sem abrir mão da ousadia, uma das marcas de Glória Perez.
Como a própria autora ressalta, os temas escolhidos por ela não pertencem ao futuro, são contemporâneos. O trabalho que Gloria faz se diferencia no tratamento profundo e humanizado dos assuntos. Foi assim com a inseminação artificial em Barriga de Aluguel (1990) e o tráfico de pessoas em Salve Jorge (2012), por exemplo. Dessa vez, porém, a novelista se arrisca em um campo ainda mais sensível e que conta com ampla resistência social. Ao escolher entrar no universo dos transgêneros, a autora pisa em um terreno especialmente espinhoso para um país tão apegado às raízes religiosas.
Clareando as diferenças
Ainda há muita confusão em tudo o que diz respeito à população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais). A própria imprensa reitera diariamente esse conflito ao escolher os termos inadequados. OPTV preparou uma cartilha para clarear essas diferenças, baseada em trabalhos divulgados pela Rede Trans Brasil e pela ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais)
- Orientação Sexual refere-se à capacidade de cada pessoa em ter atração por outros indivíduos. Basicamente, há quatro orientações: pelo mesmo sexo/gênero (homossexualidade), pelo sexo/gênero oposto (heterossexualidade), pelos dois sexos/gêneros (bissexualidade) ou por nenhum sexo/gênero (assexualidade). O termo opção sexual não é adequado, pois indica escolha e não uma condição. Homossexualismo também não, já que denota uma doença.
- Identidade de Gênero diz respeito à percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de uma combinação dos dois, independente do sexo biológico. Nesse campo, o termo transgênero abrange o grupo diversificado de pessoas que não se identificam, em graus diferentes, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi determinado no nascimento. Os transexuais e as travestis são, portanto, transgêneros. Já cisgênero é o conceito guarda-chuva que abarca todas as pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi determinado no nascimento.
- Transexualidade não é uma doença mental, não é uma perversão sexual e nem uma doença debilitante ou contagiosa. Mulher trans é a pessoa que reivindica o reconhecimento como mulher. Homem trans é a pessoa que reivindica o reconhecimento como homem – esta é Ivana (Carol Duarte), que vai adotar um nome masculino no decorrer de A Força do Querer (Aqui, Glória explica a razão de escolher uma mulher para interpretar Ivana, e não um homem trans). Ao contrário do que alguns pensam, o que determina a condição transexual é como as pessoas se identificam e não necessariamente um procedimento cirúrgico.

- Travestis são as pessoas que vivenciam papéis de gênero feminino, mas não se reconhecem como homens ou como mulheres, e sim como membros de um terceiro gênero ou de um não-gênero. É importante ressaltar que as travestis devem ser tratadas no feminino. Já os Transformistas são indivíduos que se vestem com roupas do gênero oposto movido por questões artísticas. Ainda são poucas as informações sobre Nonato (Silvero Pereira), mas sabe-se que ele vai trabalhar como motorista de Eurico (Humberto Martins), escondendo a identidade que adota à noite. “Mais pra frente, seu patrão vai descobrir que ele não é Nonato, que ele é Elis Miranda, um artista transformista", adiantou Silvero. Sendo assim, a princípio, Nonato não seria uma travesti.
Dada a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero, Gloria Perez tem absoluta liberdade para escolher com quem Ivana irá se relacionar - se é que vai. Como a atração emocional, afetiva ou sexual independe do gênero, a personagem poderá interessar-se por homens, mulheres, ambos ou, ainda, nenhum deles.
Um recorde vergonhoso
Quando Gloria Perez diz que vai “salvar vidas”, ela não está exagerando. A inclusão dos dramas pessoais de um indivíduo trans no produto de maior audiência da TV indica, de fato, uma possível diminuição do preconceito. “Ao criar uma empatia entre o público e os transgêneros, desejo permitir que essas pessoas sejam olhadas com compreensão”, disse a autora.
Os transgêneros compõem um dos grupos mais vitimizados do Brasil. O risco de uma pessoa trans ser assassinada é 14 vezes maior que o de um homem gay, e a chance dessa morte ser violenta é 9 vezes maior.
Segundo a organização internacional Transgender Europe, foram registrados 295 homicídios de pessoas trans entre outubro de 2015 e setembro de 2016 em 33 países. A maioria foi no Brasil: 123 casos; em segundo lugar está o México, com 52 casos. Vale lembrar que essas mortes aconteceram por transfobia, ou seja, foram crimes de ódio pela condição de gênero.
Ao longos dos próximos meses, o público vai poder acompanhar os dilemas de Nonato e Ivana e as suas lutas por respeito - o mesmo respeito que esperamos para as Ivanas e Nonatos da vida real.
A Força do Querer estreia nesta segunda (03), logo após o Jornal Nacional.
Comentários (6) Postar Comentário
Ótima matéria, muito esclarecedora.
Estou muito animada com a estréia da novela e para ver essa história no ar.
Parabéns ao site! Já fiz vários comentários negativo ao que vcs escrevem. Mas com essa publicação vcs lucraram. Além de serem os primeiro site a divulgar com esse texto muito sério e esclarecedor o que é a homofobia em nosso país divulgando até números. Parabéns a vcs, independe da emissora temos sim que entrar juntos nessa luta em defesa desses seres humanos como nós que querem apenas ser felizes em algum lugar no mundo. Parabéns ao planeta tv.
A justificativa da Glória Perez de não ter chamado um homem trans para interpretar Ivana foi péssima. Existe homem trans em fase de transição, que poderia interpretar a fase de pré-transição de forma convincente. Isso sem falar que, qualquer coisa, existem efeitos especiais aí, né. Vindo de uma autora que acha que há simetria em não chamar serial killer para interpretar serial killer e não chamar pessoa trans para interpretar pessoa trans, pode-se esperar qualquer justificativa frágil.
Essa questão de ser homem ou mulher acho que nao importa, penso eu que a autora vai se utilizar de recursos do manuel carlos que ao longo da historia apresentava personagens com afinidades e historias semelhantes, mas se fosse pra chamar um ator homem gostaria de ver marcos nanine deu um show em eta mudo bom ou airton graça aquele que interpretou a xana seria otimo.
Nascemos homens ou mulheres isso é fato querer negar tal verdade é negar a biologia! Transgeneros não passa de desvio psicológico como já muitos cientistas já disseram,e um tratamento corrigiria tal desvio. A Globo novamente tenta jogar esse assunto Como algo normal e como passou no fantástico é como se fosse algo do qual já nasce com a pessoa e isso é um erro!
Dá tristeza ler o que Cesar e Magda escreveram, mas dá muita alegria ver tantas curtidas nos comentarios a favor da materia pq no fundo é isso; não importa se voce acha legal ou não ser trans, importa que voce entenda que as transsexuais morrem só por serem assim e não estão fazendo mal a ninguem. Acha justo ser humilhada, agredida e morta por usar um vestido, por exemplo? vamos ser sensiveis, vamos nos livrar dessa mania de querer separar as pessoas por aquilo que dizem que Deus queria. Deus é amor, ele quer que todos sejam amados, respeitados. As igrejas é que mudam esse sentido e dizem o que elas pensam como se Jesus também quisesse. Jesus também foi morto por ser DIFERENTE acham mesmo que ele aprovaria essa combate contra trans, gays, negros...? Se jesus voltasse ele seria agredido de novo, mas com certeza teria muito mais gente defendendo ele!