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Assédio: De vítimas a protagonistas

A obra de 10 episódios, de Maria Camargo, estreia dia 3 de maio.

por Redação, em 23/04/2019

Foto: Globo/Ramón Vasconcelos

Stela. Eugenia. Daiane. Maria José. Vera. Professora. Arquiteta. Recepcionista. Dona de Casa. Bailarina. Nomes, profissões e estatísticas que reuniram mulheres de idades, classes e situações emocionais tão diferentes em torno da mesma dor, vergonha e angústia. Cada uma com uma história, uma bagagem, mas todas com a mesma sede de justiça, que as fortaleceu. Juntas após o episódios de assédio, elas encontram umas nas outras o acolhimento que não viam em suas próprias casas, com sua própria família. 

A quebra do silêncio gera um movimento crescente e desperta nas demais vítimas o desejo por justiça. As vítimas passam a entender que juntas são mais fortes. “Por estarem vulneráveis e por haver uma permissividade social e cultural, elas vão sendo assediadas. Esse médico tira partido dessa fragilidade delas, do poder que ele tem e da permissividade que acontece em torno para atacá-las”, ressalta a autora Maria Camargo.

Quem são essas mulheres? De onde vem sua força? De onde vêm suas fraquezas? Conheça abaixo algumas vítimas do médico Dr. Roger Sadala (Antonio Calloni). 

Stela e o silêncio devastador

Stela (Adriana Esteves) e Homero (Leonardo Netto) vivem um casamento feliz e sonham em ter um filho, mas sem sucesso. Ela é professora de educação infantil, ele piloto de avião. Em 1994 vão ao consultório de Dr. Roger e, já no primeiro encontro, acreditam que finalmente vão conseguir aumentar a família. A esperança vira desalento e escuridão quando Stela, após a coleta dos óvulos, é violentada pelo médico ainda anestesiada. Sem entender bem o que aconteceu, mas ciente da agressão, não consegue contar a ninguém o que viveu. O caos se estabelece em sua vida. A dor se transforma em um silêncio ensurdecedor, que guia a sua vida ao longos dos anos seguintes. Ela se sente inapta a continuar a dar aulas. Homero não entende o sofrimento da esposa e sua recusa em voltar à clínica de fertilização. Ela deixa o emprego, a separação é inevitável e a professora acaba acometida por uma forte depressão.

“Stela é uma mulher, vítima de dores e frustrações fortes, que foram agravadas por uma enorme sensibilidade. Procuro ter responsabilidade em apresentar uma história, com fidelidade e respeito a pessoas que passaram por situação semelhante”, conta a atriz Adriana Esteves, que define como artesanal a forma de construir seus personagens. “Aos pouquinhos a personagem vai nascendo, amadurecendo, crescendo, se encontrando em sua função. Só quando vai ao público, consigo dimensionar o que foi feito.”

Eugênia e a força do acolhimento familiar

Assim como aconteceu com Stela e Homero, o casal Eugênia (Paula Possani) e Ronaldo (Felipe Camargo) procuram tratamento. É a saída para realizar o sonho de maternidade da arquiteta, já que ele, após ser pai no primeiro casamento, fez vasectomia. Ao acordar da anestesia, também após a coleta dos óvulos, ela tem dores, algum sangramento e estranha a atitude do médico. Ainda assim, confiante, volta para a segunda etapa do processo e entende o que aconteceu: ela é assediada pelo médico novamente, mas dessa vez consciente. Eugênia conta imediatamente tudo para o marido e juntos procuram um advogado. 

“Eugênia e o marido são o exemplo de como os casais deveriam agir nesse tipo de situação. Ela conta do abuso imediatamente para o marido, que acredita nela e apoia. Eles consultam um advogado e fazem um registro em cartório do que aconteceu. Mas esbarram no problema da falta de provas. Por isso não conseguem fazer a denúncia. Sabemos que vítimas de abuso costumam sofrer com a falta de credibilidade das pessoas e até de autoridades. A denúncia é frequentemente colocada em questão. Muitas vezes duvidam ou tentam diminuir o que aconteceu, inclusive culpando a vítima”, pondera a atriz Paula Possani. 

Maria José: apontada como culpada pelo marido

Assim como as outras pacientes, Maria José (Hermila Guedes) também sofre com a ausência de filhos e a cobrança por parte da família. Diante de tantos casais com condições financeiras para realizar o tratamento, ela e Odair (João Miguel) vivem uma situação diferente. Residem em Vitória da Conquista, na Bahia, e precisam abrir mão de suas economias para conseguir financiar a viagem, a consulta e o procedimento. Juntos viajam para São Paulo em busca do sonho, mas o que encontram pelo caminho vai contra todos os seus desejos. Maria José é violentada por Roger e ainda precisa lidar com a desconfiança do marido, que, ao saber do ocorrido, acredita que a relação foi consensual. Mesmo após o ataque, ela decide continuar o tratamento para fazer valer o dinheiro investido. A vontade de ser mãe parece maior do que a agressão sofrida, mas a dor é inevitável.

“Ela é uma mulher nordestina, de muita fibra e dignidade, atrás do sonho da maternidade que até então acredita completar sua felicidade e a do seu marido Odair (João Miguel). Capaz de tudo: driblar a ira do companheiro, enfrentar perdas e de ir contra os próprios princípios para ter nos braços seus filhos. Muito feliz de estar num projeto tão contundente e de um grande serviço à sociedade”, defende Hermila Guedes.

Vera traz força e sororidade

Vera (Fernanda D’Umbra) logo entra para a estatística do Dr. Roger. Casada com Elisa (Simone Iliescu), com quem resolve ter um filho, também é agredida psicológica e fisicamente. Juntas, elas procuram um advogado para registrar o ocorrido e descobrem que outra cliente, Eugênia, passou pela mesma violência e decidem procurá-la. Já estamos no ano de 2007 quando as duas se encontram, conversam e decidem se unir contra o médico. 

“A Vera é uma mulher tranquila, bailarina, casada com Elisa. Sua paz é rompida quando é atacada dentro da sala de consulta. Ela fica em choque e foge da clínica. Mas sua busca por justiça a coloca de volta ao centro dessa história: ela se une às mulheres que o denunciam e vai aos tribunais exigindo que o médico pague por tudo o que fez. A primeira vez que eu gravei com o Calloni foi muito forte. Era a cena do meu depoimento diante dele no tribunal. Saí dessa cena e tive uma pesada crise de choro. Não conseguia explicar racionalmente o que estava acontecendo comigo. Maria Camargo, a autora, estava no set, veio me abraçar e chorou também. Esse dia não foi fácil para nós, mulheres. Durante as gravações nos ajudávamos a entender a melhor forma de representar aquilo sem perder a força de luta delas. Porque a série fala dessa luta de um grupo de mulheres que encontra na união a sua única possibilidade de força. Portanto, a união das atrizes e a ajuda mútua foi quase natural”, lembra a atriz Fernanda D’umbra. 

Daiane é o catalisador das denúncias

De 1994 a 2007 nada muda na relação do médico com suas pacientes. O silêncio das vítimas parece garantir a tranquilidade de Roger e a certeza de que sairá ileso de qualquer ato cometido dentro de suas clínicas. Mas Daiane (Jéssica Ellen), a recepcionista, sempre desconfiou do que acontecia dentro do consultório. Não podia ter certeza, mas seus sentidos indicavam que algo terrível se passava ali. O que não imaginava é que, após servir de espiã para Glória (Mariana Lima), mulher do patrão, seria atacada por ele. No entanto, ela não se cala diante do abuso e decide expor publicamente o assédio sofrido. 

Foto: Globo/Ramón Vasconcelos

“Daiane é uma mulher muito forte e de muita coragem. É moradora da Brasilândia, zona norte de São Paulo. Mulher guerreira, batalhadora, mãe de dois filhos e chefe de família, como muitas mulheres brasileiras”, torce a atriz Jéssica Ellen.

Primeira série original da Globo desenvolvida com exclusividade para o Globoplay, ‘Assédio’ chega à TV aberta no dia 03 de maio. A obra de 10 episódios é escrita por Maria Camargo, com Bianca Ramoneda, Fernando Rebello e Pedro de Barros. A direção artística é de Amora Mautner, direção-geral de Joana Jabace e direção de Guto Botelho. A série é livremente inspirada no livro “A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Vilardaga. 



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