A vocação artística de Bem, filho de Wagner Moura, abre uma das frentes pessoais da entrevista que o ator concede ao Conversa com Bial nesta terça-feira, dia 4. Estudante de cinema, o jovem prepara sua estreia diante das câmeras em um longa dirigido por Monique Gardenberg, com Marieta Severo e Humberto Carrão no elenco.

Wagner conta que o filho pretende trabalhar como diretor, escreve bem e conquistou o papel por meio de um teste. “O Bem é artista. Ele quer ser diretor, escreve super bem. Fez teste e passou. Acho um filme maravilhoso para ele começar”, afirma. A conversa também menciona Salvador e José, os outros dois filhos do ator.

Ao olhar para a própria formação, Wagner retoma a passagem pelas novelas A Lua me Disse e Paraíso Tropical. Para ele, a exigência de chegar ao estúdio pronto para gravar desenvolveu uma capacidade de resposta que se tornou importante em sua trajetória. “A novela me preparou porque você tem que chegar e fazer. Esse sentido de sobrevivência a novela me deu”, diz.

Essa experiência antecedeu uma carreira que hoje inclui projetos fora do Brasil. Durante a conversa, Pedro Bial pergunta se Wagner já domina o inglês a ponto de interpretar sem sotaque. O ator responde que não pretende apagar essa característica de sua fala e relaciona a decisão à presença de imigrantes e de outras pessoas que também se expressam com sotaque.

“Eu não quero falar sem sotaque. Acho que represento uma parcela gigante de pessoas: gente que fala com sotaque, imigrantes. Politicamente, me sinto muito confortável em dizer que não quero fazer isso”, declara.

O momento profissional reúne filmagens de produções estrangeiras, a repercussão mundial de O Agente Secreto e os efeitos da indicação ao Oscar. Wagner também conquistou a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cannes. Segundo ele, esse reconhecimento ampliou o número de oportunidades disponíveis, sem modificar sua maneira de escolher trabalhos.

“Eu sigo sendo o artista que sou, do jeito que acredito, escolhendo as coisas que têm a ver comigo. Mas é claro que, depois da visibilidade de um Oscar, vêm oportunidades que não viriam antes”, comenta.

A entrevista foi realizada em Atenas, na Grécia, durante a agenda internacional do ator. A Acrópole aparece ao fundo do cenário. Gian Bellotti, diretor artístico do programa, afirma que Wagner estava nos planos desde o começo da temporada, mas tentativas anteriores esbarraram nas dificuldades de conciliar os compromissos do artista.

Para Bellotti, a gravação na capital grega fortaleceu o significado do encontro. Ele associa Atenas ao nascimento da democracia e do teatro ocidental, justamente dois dos assuntos presentes na conversa.

Wagner está na Europa com O Julgamento, criado por ele, Cristiane Jatahy e Lucas Paraízo a partir de Um Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen. A criação coloca no mesmo palco questões ligadas à participação popular e à polarização, além do confronto entre verdade e democracia.

A turnê também serviu de cenário para uma passagem pessoal. O ator completou 50 anos durante uma apresentação em Amsterdã, na Holanda. O aniversário nos palcos ganhou importância para Wagner porque sua história profissional começou no teatro, linguagem à qual retornou depois de anos concentrado sobretudo no cinema.

“Fazer 50 anos voltando aos palcos foi muito significativo. Minha história como ator começou no teatro e eu me sinto dessa forma. O teatro me faz entender por que eu escolhi isso. É a fagulha que me fez querer ser ator”, relata.

A partir dos temas levados por O Julgamento, Wagner expõe sua inquietação com a dificuldade atual de estabelecer consensos. Ele lembra que grupos de esquerda e de direita já discutiram interpretações diferentes de um mesmo fato, enquanto agora percebe as próprias referências factuais perdendo espaço.

“Eu lembro de uma época em que esquerda e direita brigavam, discutiam, mas estavam vendo o mesmo fato. Hoje, os fatos já não importam mais. Se os fatos deixam de existir e passam a existir versões da realidade, isso me assusta”, analisa.

O Conversa com Bial será exibido pela TV Globo nesta terça-feira, dia 4, depois de Pablo & Luisão.