A nova novela das 21h da TV Globo, Três Graças (estreia prevista para 20 de outubro), aposta em uma linguagem que assume a ficção como recurso expressivo: cores intensas, espaços permeáveis e movimentos de câmera que dão pulso às tramas espalhadas por diferentes polos da capital paulista. A concepção reúne direção artística de Luiz Henrique Rios e direção de arte de May Martins, com cenografia de Cristiane Fassini e produção de arte de Nininha Medicis.

A proposta estética aparece na imagem e no set. “Ele utiliza lentes e zooms com movimentos que acompanham essa respiração e esse pulso. No fim das contas, há perigos ali, as situações são extremas”, pontua May Martins, que ainda ressalta a importância de cenários que se conectam para sustentar o suspense: “Os ambientes são muito integrados, o que contribui para a fluidez narrativa. Sempre há algo acontecendo em algum lugar”.

Entre o real e o fabulado: paleta, proporção e referências

A cenografia trabalha com base concreta e licença poética. “A arquitetura é concreta. Podemos exagerar nas cores e nos detalhes, mas a proporção precisa ser verdadeira”, explica a cenógrafa Cristiane Fassini. As referências incluem a estética de Pedro Almodóvar e uma paleta de primárias (vermelho, azul e amarelo) — além do verde — que atravessa cenários, figurinos e objetos de cena.

Nos ambientes mais abastados, como o apartamento da família de Ferette (Murilo Benício), entram cores pigmentadas e sóbrias; na Chacrinha, comunidade fictícia da trama, tons mais abertos e iluminação pensada para dialogar com essas escolhas.

Chacrinha: um recorte de periferia paulistana

Construída nos Estúdios Globo (RJ), a cidade cenográfica da Chacrinha nasce de pesquisa de campo em São Paulo. “Mantivemos o arruamento anterior, mas verticalizamos as construções para remeter à Brasilândia. Criamos segundos andares e dividimos casas grandes em menores, alterando cores e esquadrias para transmitir a sensação de multiplicidade”, diz Cristiane.

A equipe de arte ainda recheou as externas com elementos que mantêm o ambiente “vivo”. “Levamos muitos camelôs, cartazes, faixas, carrinhos de papelão — tudo para garantir vida constante”, conta Nininha Medicis. Um caminhão levou itens da laje de Bagdá (Xamã)churrasqueira, narguilé, pipa, caixas de som com LEDs — e composições para igreja do pastor Albérico (Enrique Diaz), posto de saúde e farmácia da Fundação Ferette, onde Viviane (Gabriela Loran) trabalha.

Foto: Globo/ Estevam Avellar
Foto: Globo/ Estevam Avellar

Casa de Gerluce: afeto, memória e construção orgânica

A morada de Gerluce (Sophie Charlotte) com Lígia (Dira Paes) e Joélly (Alana Cabral) traduz camadas de lembrança. Fachada amarela com portas azuis e interiores feitos “no tempo da família”: pisos diferentes, puxadinhos e objetos cotidianos. “Arroz e feijão ficam em potes de sorvete, tem paninhos de prato com silk, quadrinhos de casca de ovo pintados na escola. É um espaço que conta a história da vida delas”, descreve Nininha.

A cidade em movimento: ônibus e cotidiano nas ruas

A produção integrou as ruas de São Paulo ao enredo, incluindo o transporte público. Na primeira fase de externas, três ônibus — um elétrico — foram totalmente caracterizados para as sequências do motorista Gilmar (Amaury Lorenzo), com adesivagem, validador de cartão, estação de cobrador e câmeras de segurança.

Mansão de Arminda: a peça-chave do mistério

Entre os ambientes dos personagens mais ricos, a mansão da vilã Arminda (Grazi Massafera) — ficcionalmente na Aclimação — chama atenção. “É uma casa de poucas cores, mas muito intensas”, define May Martins. “Ela coleciona lupas, ampulhetas, objetos acumulados. É como o castelo da bruxa”, completa Nininha.

No quarto-biblioteca, a escultura As Três Graças (1,80 m) ocupa centro simbólico. Feita em resina com pó de mármore na fábrica de cenários, ela ancorará momentos de forte carga dramática.

Poder e aparência: apartamento e Fundação Ferette

Sede de influência e dinheiro, a Fundação Ferette recebeu verde solene com laranja controlado. “A fundação tem um propósito aparentemente simpático”, diz May. Na casa do Ferette, as cores refletem o papel de Zenilda (Andréia Horta) e um traço de esperança. O apartamento foi inspirado em imóveis de alto padrão de bairros nobres paulistanos, com arquitetura moderna e grandes panos de vidro, detalha Cristiane.

Arte em casa: a galeria de Kasper e João Rubens

A galeria de arte administrada por Kasper (Miguel Falabella) e João Rubens (Samuel de Assis) é extensão da residência do casal: salão de exposição com arquitetura industrial na frente, casa nos fundos e pátio com plantas e esculturas ao centro. “O casal tem gosto refinado e lida com arte. A arquitetura é neutra, mas com móveis ousados e obras de arte, refletindo a personalidade deles”, afirma Cristiane.

Ficha de produção

Criação e roteiro: Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva

Direção artística: Luiz Henrique Rios

Produção: Gustavo Rebelo e Silvana Feu

Direção de gênero: José Luiz Villamarim

Estreia prevista: 20 de outubro (TV Globo, faixa das 21h)