A saída de Rinaldi Faria da cúpula do SBT marca um recuo importante na estratégia de reformulação da emissora e expõe uma crise de confiança entre a direção e alguns dos principais apresentadores da casa. O empresário, criador da franquia de palhaços Patati Patatá e, até então, responsável pela Superintendência Artística e de Programação, teve o contrato encerrado nesta terça-feira (18 de novembro de 2025), após pouco mais de um ano e meio à frente das mudanças na grade e na linha de conteúdo. A demissão foi oficializada em comunicado conjunto, mas, nos bastidores, o movimento é visto como resultado direto de embates com nomes influentes do elenco e de desgaste provocado por alterações sucessivas na programação.

Embora o SBT tenha adotado tom institucional ao anunciar o desligamento, evitando entrar em detalhes, profissionais apontam que a decisão foi construída ao longo de meses de tensão. Um dos focos centrais da crise foi o conflito com Ratinho, que se tornou um dos críticos mais contundentes das medidas implementadas por Faria. O apresentador passou a questionar, dentro e fora da emissora, mudanças na grade que, em sua avaliação, não ajudavam na audiência e ainda comprometeriam o faturamento do canal.

Entre as decisões mais contestadas estava a insistência na faixa infantil com Bom Dia & Cia, relançado sob a batuta dos palhaços ligados à marca Patati Patatá. A atração, no entanto, vinha rendendo apenas 1 ponto de audiência na Grande São Paulo, segundo dados de mercado, colocando a programação matinal em situação delicada em comparação com as concorrentes. Em diferentes levantamentos ao longo de 2025, o programa raramente ultrapassou a casa de 1 ponto, chegando a marcar 1,0 e até 0,9 em algumas edições, resultado considerado crítico para o terceiro canal aberto do país.

Nos bastidores, Faria chegou a articular uma mudança ainda mais radical: a saída de Ratinho da programação diária a partir de 2026, com a transformação de seu programa em formato semanal. A proposta, interpretada como tentativa de esvaziar um dos principais pilares comerciais da emissora, acirrou a disputa de poder. O apresentador, que historicamente goza de prestígio e forte capacidade de gerar receita, reagiu com veemência à possibilidade de rebaixamento de espaço, o que teria provocado discussões duras e ampliado a pressão interna pela saída do executivo.

Não foi apenas Ratinho que se posicionou contra a condução da área artística. Apresentadores como Celso Portiolli e César Filho também manifestaram, nos corredores, o incômodo com o que classificavam como “devaneios” na grade de programação. A cobrança do elenco veterano era por estabilidade, previsibilidade na faixa horária e uma estratégia de longo prazo, em vez de mudanças bruscas e constantes que, na avaliação interna, confundiam o público e fragilizavam a relação com o mercado publicitário.

Entre junho e setembro, o SBT promoveu sete alterações na grade, a maioria concentrada no fim de tarde, em busca de reação nos números de audiência. As reestruturações envolveram deslocamento de programas, ajustes de horários e tentativas de reposicionar atrações já conhecidas do público. Na prática, porém, os movimentos não se traduziram em resultados consistentes, alimentando a percepção de que a emissora “girava em torno de si mesma” sem encontrar um caminho claro de crescimento.

Outro ponto de atrito foi a tentativa de emplacar o filho de Rinaldi, Igor Faria, como apresentador. Por orientação direta do empresário, Igor ganhou espaço de destaque no horário nobre do Teleton, tradicional maratona beneficente do SBT, realizada no início de novembro. A decisão foi vista internamente como um gesto de autopromoção, num momento em que o canal lidava com reclamações de falta de investimento em projetos já consolidados e de sucateamento de parte da estrutura, especialmente na área de entretenimento.

Desde o primeiro semestre, nomes importantes do elenco e da equipe técnica vinham demonstrando desconforto com o enxugamento de custos e com a postura considerada rígida da atual gestão artística. Relatos de bastidores apontam que, ao mesmo tempo em que cobrava corte de despesas e defendia um plano de austeridade severo, Faria patrocinava mudanças sucessivas na grade, o que gerava sensação de instabilidade e alimentava a narrativa de que a emissora perdia identidade.

O comunicado oficial divulgado pelo SBT, porém, adotou tom conciliador. No texto, a emissora afirma:

“São Paulo, 18 de novembro de 2025 – O SBT e o empresário Rinaldi Faria comunicam, em comum acordo, o encerramento do contrato de prestação de serviços de consultoria.

Rinaldi Faria integrou a emissora há um ano como consultor e, desde julho, acumulava interinamente as responsabilidades da Superintendência Artística e de Programação.

Ele desempenhou um papel estratégico na coordenação e no desenvolvimento de conteúdo dos programas.

O SBT agradece a parceria, a dedicação e as contribuições de Rinaldi Faria e deseja sucesso nos seus próximos desafios profissionais e de seus próprios negócios.

A reestruturação da área será conduzida diretamente pela Presidência do SBT, que reforça seu compromisso em manter o avanço na jornada de transformação e inovação da emissora.”

O texto confirma oficialmente que Faria começou na casa como consultor, antes de assumir interinamente a superintendência artística e de programação em julho. Em reportagens anteriores, já se registrava que o empresário, contratado em novembro de 2024, vinha se tornando um dos homens de confiança de Daniela Beyruti, presidente do SBT, com forte influência em decisões de conteúdo e de corte de custos.

Com a saída de Rinaldi, a emissora informa que a reestruturação da área artística ficará, por ora, sob responsabilidade direta da Presidência. Internamente, a expectativa é que Daniela Beyruti busque um nome capaz de dialogar melhor com o elenco estelar e de reconstruir pontes com apresentadores e diretores que se sentiram alijados do processo de decisão nos últimos meses. Entre funcionários ouvidos pela coluna, a executiva é descrita como bem-intencionada, focada no crescimento do SBT, mas cercada por uma assessoria que, na leitura de parte do time, não entregou bons resultados na condução artística enquanto o criador de Patati Patatá esteve à frente da área.

Fora da emissora, Rinaldi continua sendo um personagem relevante no entretenimento infantil. Criador de um império de licenciamento em torno da marca Patati Patatá, o empresário já comandou programas de TV, fundou a Rede Mais Família e mantém negócios na área de comunicação e eventos voltados ao público infantil e familiar.