A Globo tem uma resposta pronta para quem reclamou das ruas de Barro Preto: as calçadas quase desertas da cidade cenográfica de A Nobreza do Amor não são sintoma de orçamento apertado. Em nota oficial, a emissora afirmou que a baixa circulação de figurantes nas cenas do interior fictício do Rio Grande do Norte integra uma decisão artística alinhada à narrativa — o lugar foi concebido como uma espécie de território fora do tempo, isolado entre as falésias do litoral nordestino.

"Barro Preto é representada como uma 'cidade fora do tempo', no interior, isolada em meio às falésias do Rio Grande do Norte. A cidade tem sua comunidade mobilizada para os principais eventos, mas, no dia a dia é marcada como um lugar tranquilo e pacato. Para retratar isso, a pouca circulação de pessoas é uma escolha artística", declarou a Globo ao Notícias da TV (UOL).

O posicionamento, no entanto, não chegou a tempo de evitar a repercussão acumulada nas redes sociais. Telespectadores há semanas apontam cenas em que Barro Preto parece uma cidade fantasma — e o exemplo mais citado é do capítulo de 6 de abril, quando Alika (Duda Santos) e Tonho (Ronald Sotto) discutiram em plena rua sem que nenhum transeunte aparecesse ao fundo. Dias antes, em 3 de abril, Virgínia (Theresa Fonseca) dirigia pelo centro da cidade sem risco algum de atropelar alguém, simplesmente porque não havia quase ninguém nas vias.

A ironia tomou conta de parte dos comentários. "Barro Preto segue inabitável. Parece até uma cidade fantasma, sem um pé de pessoa na rua. Tá explicado por que Jendal vai demorar tanto a achar. Será que tá no mapa?", escreveu Joyce Santos no X. Sérgio Santos, criador de conteúdo na mesma plataforma, foi mais direto na acusação: para ele, a falta de figurantes não é estética, é contenção de gastos.

A cidade cenográfica tem dois papéis dentro da trama. Para a narrativa, Barro Preto serve de esconderijo a Alika e Niara (Erika Januza), fugitivas do antagonista Jendal (Lázaro Ramos) — e o isolamento, nessa lógica, faz sentido dramático. Para os bastidores, porém, a percepção de economia persiste mesmo entre quem não desqualifica o trabalho da equipe criativa.

O debate ganhou contornos históricos quando os mesmos fóruns começaram a comparar A Nobreza do Amor com produções antigas da Globo exibidas no Vale a Pena Ver de Novo e na Edição Especial. Avenida Brasil (2012) surgiu nas comparações com suas cenas densas de figurantes e produção vistosa. Terra Nostra (1999) também entrou na discussão — a novela de época, ambientada em São Paulo capital, exibia multidões que contrastam com o interior silencioso de Barro Preto, ainda que os dois projetos compartilhem o recorte temporal histórico como pano de fundo.

A própria trajetória da novela das seis coloca esse debate num contexto editorial mais amplo. A Nobreza do Amor registra 16,7 pontos de média, número considerado baixo para a faixa — embora tenha alcançado 18 pontos em algumas medições após a entrada de Avenida Brasil no Vale a Pena Ver de Novo. Com 204 capítulos confirmados, a exibição segue até 6 de novembro, quando a faixa será assumida por Lá na Minha Terra, de Mario Teixeira, com direção artística de Allan Fiterman.

Há cenas em A Nobreza do Amor que afastam a ideia de produção enxugada ao extremo. As batalhas em Batanga, nos primeiros capítulos, e a briga de Virgínia e Alika na frente da igreja, exibida em 10 de abril, reuniram elenco e figurantes em volume compatível com produções de maior porte. Isso alimenta a tese da Globo de que a opção pelo esvaziamento das ruas é pontual e motivada pelo caráter da cidade — não uma política de cortes aplicada a toda a novela.