Em Três Graças, próxima novela das 21h da Globo (estreia em 20 de outubro), Murilo Benício surge como Ferette, empresário que posa de benfeitor à frente de uma fundação que leva seu nome e distribui remédios à população vulnerável — medicamentos que, na verdade, são falsificados. As primeiras chamadas atiçaram a curiosidade do público não apenas pelas vilanias, mas pela sonoridade com que o personagem se comunica. Em conversa com a Revista Veja, Murilo Benício e o diretor Luiz Henrique Rios detalharam a escolha estética. 

Durante o encontro, Benício explicou como nasceu a ideia de acentuar a fala de Ferette:“Acho que sou eu tentando fazer sotaque paulista”, brincou. Em seguida, ele narrou como a proposta ganhou corpo ao lado do diretor: “Eu lembro de alguém achar que isso fosse ideia minha, mas não. Eu lembro de estar com o Luiz Henrique em um almoço com a Grazi, que falou: ‘Ai, que bom, pela primeira vez na vida eu vou poder fazer o meu sotaque. Eu vou ficar muito à vontade’. Aí eu falei: ‘Graças a Deus, porque eu sou péssimo de sotaque’. Aí quando a gente voltou do almoço, o Luiz Henrique falou assim: ‘Eu queria que você fizesse sotaque, sabe, um paulista meio italiano’. Eu falei: ‘Puxa, vida, isso vai cair para mim’. Então é uma procura, é mais até do que o sotaque que a gente estava desenvolvendo, o que eu acho que também é, se encaixa muito com com o universo da novela, do Aguinaldo, é um universo próprio, descolado da realidade”, explicou o ator.

A afinidade com o universo de Aguinaldo Silva também pesou: “A minha primeira novela com o Aguinaldo Silva foi Fera Ferida (1993), que é uma novela que eu guardo até hoje no meu coração como uma das mais importantes para mim. E era uma maravilha aquela novela, porque era um universo muito próprio. Então, eu acho que essa propriedade de se fazer é que é a grande jogada da novela”.

“Não existe um sotaque paulista”: a visão da direção

Rios reforçou que a proposta vai além de um rótulo regional: “Não existe um sotaque paulista. Isso é real. Quando os paulista trocam de bairro, eles trocam de som. Você encontra uma pessoa de cada lugar de São Paulo, e cada lugar de São Paulo tem um jeito de falar. O cara, por exemplo, da Faria Lima, se for numa quebrada, ele nem entende o que está sendo dito. Então, não dá para a gente criar um sotaque paulista. E aí na brincadeira da construção de uma sonoridade, construímos várias sonoridades nessa novela”, começou o diretor.

Na sequência, ele detalhou a busca por um registro “hiper-real”: “E aí, para sairmos desse lugar real, a gente criou alguns tons hiper-reais. O sotaque, a forma do Ferette que o o meu amigo Murilo tá brilhantemente pesquisando e desenvolvendo, é uma forma própria. Porque você tem essas formas próprias. Eu conheço pessoas que tem uma sonoridade bem próxima dele, não é fora dessa realidade. Então, é um pouco essa brincadeira que a gente tá propondo para o público. É isso que estamos tentando fazer. Espero que o público curta, porque eu acho que está muito divertido.”

Ferette comanda uma fundação “modelo”, mas distribui remédios de farinha. O esquema envolve Arminda (Grazi Massafera), com quem o vilão mantém um caso e desvia recursos. Entre as vítimas está Lígia (Dira Paes), mãe de Gerluce (Sophie Charlotte). Ao cuidar de Josefa (Arlette Salles), mãe de Arminda, Gerluce descobre a fraude; com a saúde de Lígia em queda, a protagonista promete justiça e vingança contra os criminosos.

Aposta das 21h: o retorno de Aguinaldo Silva

Criação de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva, Três Graças mistura romance, investigação policial e crítica social em bairros centrais de São Paulo, como a Aclimação, cenário de parte dos conflitos. O título sucede o remake de Vale Tudo e é tratado internamente como aposta estratégica para estabilizar o desempenho da faixa das 21h. Estreia em 20 de outubro.