A televisão brasileira perde nesta terça-feira, 7, um autor que fez do interior do país uma frente principal da novela. Benedito Ruy Barbosa morreu em São Paulo, após uma carreira marcada por sagas familiares, conflitos de terra, imigração e personagens guiados por valores que ele próprio associava a bom caráter, luta e crença em princípios positivos.

A causa da morte foi complicação de insuficiência renal crônica, segundo confirmação do Hospital do Coração, o HCor. O velório está marcado para esta terça-feira, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de São Paulo. Em janeiro deste ano, Benedito havia ficado 19 dias internado no mesmo hospital para tratar uma infecção urinária ligada ao quadro renal crônico.

A obra que ele deixa não cabe apenas na lista de sucessos. Em novelas como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado, Terra Nostra e Velho Chico, a terra raramente aparece como cenário neutro. Ela vira herança, disputa, memória familiar, fonte de poder e motivo de separação. Esse Brasil rural foi o território dramático mais constante de Benedito.

A imigração também atravessou sua dramaturgia. Em O Rei do Gado, de 1996, a rivalidade entre famílias de origem italiana serviu de caminho para discutir posse de terra e reforma agrária. Em Terra Nostra, de 1999, os italianos Matteo e Giuliana foram separados ao chegar ao Brasil no início do século XX, numa trama em que deslocamento, romance e pertencimento caminhavam juntos.

Pantanal abriu outra dimensão para esse repertório. Escrita em 1990, na TV Manchete, a novela apostou em locações externas e levou à tela a cultura e os mistérios do bioma brasileiro. O sucesso levou Benedito de volta à Globo, onde ele escreveu Renascer, em 1993, ambientada no interior da Bahia e centrada no choque de gerações do coronel José Inocêncio.

Décadas depois, duas dessas histórias ganharam nova vida. Pantanal e Renascer voltaram ao ar em refilmagens escritas por Bruno Luperi, neto de Benedito. A permanência familiar no texto não apagou a força dos originais; ao contrário, mostrou como aqueles conflitos ainda encontravam espaço na TV aberta.

Benedito também revisitou a própria obra diretamente. Assinou a nova versão de Sinhá Moça, em 2006, e voltou a Meu Pedacinho de Chão em 2014. Na releitura colorida da novela, afirmou que finalmente conseguiu levar ao ar ideias que haviam sido barradas pela Censura na primeira versão, durante a ditadura militar.

Antes de a televisão consolidar esse universo, a escrita já havia puxado Benedito para a dramaturgia. Fogo Frio, seu primeiro romance, foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Na TV, a estreia veio em 1966, com Somos Todos Irmãos, na TV Tupi, depois de passagens que também envolveriam Excelsior, Record e TV Cultura.

O vínculo com a Globo começou a ganhar forma em 1971, quando Meu Pedacinho de Chão foi produzida em parceria com a TV Cultura e exibida pelas duas emissoras. Cinco anos depois, Benedito assinou com a Globo e passou a emplacar trabalhos na faixa das 18h, incluindo Cabocla, adaptação do romance de Ribeiro Couto exibida em 1979.

A matéria-prima desse olhar vinha de longe. Benedito nasceu em Gália, no interior paulista, em 1931, e passou a infância em Vera Cruz, região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos. Mais velho de cinco irmãos, precisou trabalhar cedo depois da morte do pai; foi auxiliar em firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro antes de chegar ao jornal O Estado de S. Paulo como revisor.

Em 2016, Velho Chico recolocou na tela alguns dos temas que acompanharam o autor por décadas. A novela, ambientada na fictícia Grotas do São Francisco, no sertão nordestino, tratou de gerações em choque e de disputas por terra e poder.

Benedito Ruy Barbosa mudou de emissora, retomou obras e viu histórias refilmadas, mas nunca se afastou do Brasil que escolheu transformar em folhetim.