Bruno Luperi recebeu de Benedito Ruy Barbosa (1931-2026) a liberdade necessária para conduzir Pantanal e Renascer sem pedir a aprovação do avô a cada alteração. A autorização surgiu durante uma discussão de duas horas, quando os dois debatiam mudanças nos textos originais.

“Ao longo de algumas brigas que nós tivemos... Numa delas, a gente ficou duas horas discutindo. Passou meia hora, ele falou: ‘Quer saber de uma coisa? Faz como se fosse teu. Vai com o que Deus te deu e não precisa mais ficar pedindo a minha bênção’”, recordou o autor, emocionado, ao Fantástico deste domingo (12).

A Globo entregou a Luperi as atualizações de Pantanal, exibida em 2022, e Renascer, levada ao ar em 2024. A autonomia concedida por Benedito não reduziu a cobrança dos espectadores que conheciam as versões de 1990 e 1993. Pelo contrário: o público acompanhava de perto o destino de personagens ligados à própria memória afetiva.

Juma Marruá, José Leôncio, José Inocêncio e João Pedro apareciam nas mensagens dirigidas ao autor. Entre os alertas estavam “Olha o que você vai fazer” e “Não estraga essa novela!”. Luperi entendeu que não mexia apenas em dois textos, mas em personagens que continuavam importantes para os espectadores.

Pantanal ainda apresentou uma dificuldade particular. Segundo o escritor, o processo foi mais intenso porque a região encontrada por ele já não era a mesma conhecida por Benedito. “O Pantanal que ele conheceu não foi o Pantanal que eu fui quando eu conheci”, explicou, ao diferenciar essa experiência do trabalho realizado em Renascer.

A permanência desses personagens ajuda a explicar a lição artística que Luperi atribui ao avô. Para ele, Benedito encontrava complexidade humana na vida simples do brasileiro e levava esse olhar para a dramaturgia. O orgulho que demonstrava pelo país também atravessava sua escrita.

“Eu acho que a lição mais valiosa que ele deu foi realmente escrever com o coração”, afirmou. Na avaliação do neto, o vínculo de Benedito com o Brasil sustentava a construção de personagens que não eram banais.

Dentro de casa, esse método aparecia na maneira como Benedito se relacionava com uma novela em exibição. O escritório se tornava o centro de sua rotina, e as cenas provocavam nele risos e lágrimas. Luperi usou a imagem de um astronauta para descrever o avô, que parecia entrar em outro universo enquanto escrevia e depois retomava a convivência familiar.

Essa capacidade de transformar experiência em narrativa também aparece na leitura que Bruno faz do Velho do Rio. Para ele, a relação da entidade com José Leôncio carrega a expectativa de reencontro com o pai que Benedito perdeu aos 12 anos.

A origem dessa interpretação estava nas histórias contadas pelo próprio novelista à família. Perto do Natal, período marcado pela morte do pai, Benedito reunia os parentes junto à árvore e aos presentes para relembrar sua trajetória. A dor pela ausência paterna acompanhava esses relatos.

“Ele contava sempre com dor. A ausência do pai foi muito marcante na vida dele”, disse Luperi.

O legado de Benedito, porém, não se limita ao que já chegou à televisão. Bruno revelou que há materiais inéditos em diferentes formatos, entre eles peças e romance, além de série e novela. Parte desse conteúdo ainda pode ser produzida.

A preservação desse material preocupa Luperi. “Acho que foi embora um gênio. Um país como o nosso, que sofre tanto de falta de memória, quando uma pessoa assim vai embora, tem que ter um cuidado especial”, declarou.

Ao falar da perda, o autor comparou o sentimento a uma onda e disse procurar preservar as lembranças boas depois da passagem da dor. Benedito, afirmou, transformou a vida de muitas pessoas, inclusive a sua. Agora, o cuidado defendido por Luperi também alcança as obras que o avô deixou sem produção.