A premiada autora de novelas Gloria Perez rompeu o contrato com a TV Globo após mais de quatro décadas na emissora. Em entrevista ao jornalista Matheus Rocha, da Folha de S.Paulo, a dramaturga revelou os bastidores de sua decisão e criticou a influência do politicamente correto na teledramaturgia brasileira.

Segundo Perez, seu projeto mais recente, intitulado Rosa dos Ventos, foi vetado pela direção da Globo por abordar temas como o aborto e questões políticas. A autora, conhecida por tramas ousadas e de forte impacto social, considerou o veto um sinal de que não teria mais liberdade criativa. "Minha assinatura é lidar com temas delicados e trazer o público para a discussão. Se eu não puder fazer isso, eu acabo", afirmou.

“Censura atual é pior que na ditadura”

Com experiência na emissora desde 1979, quando ainda enfrentava a censura da ditadura militar, Perez comparou o cenário atual com o daquele período. Para ela, o controle moral imposto hoje é mais difuso e severo. "Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior", declarou, citando a multiplicidade de vozes nas redes sociais que julgam e tentam silenciar opiniões divergentes.

Politicamente correto e crise na dramaturgia

A novelista defende que o politicamente correto enfraquece o gênero. "Novela é conflito. O politicamente correto engessa, reduz e elimina essa possibilidade", disse. Perez também apontou a chamada cultura “woke” como responsável por limitar a criatividade e transformar conflitos humanos em pautas simplificadas, reduzindo a capacidade de provocar reflexões.

Ela argumenta que obras como O Clone e Caminho das Índias dificilmente seriam aprovadas hoje, pois exigiam riscos e inovação. "No contexto atual, elas nem chegariam ao público", lamentou.

Críticas e aprovação internacional

Perez rebateu críticas de estereotipar culturas estrangeiras em suas produções. Para a autora, o reconhecimento vem do próprio público retratado. "Quem foi ao Marrocos, à Índia, à Capadócia viu de perto o quanto a população dos locais gostou desses retratos", destacou.

Travessia e a saída definitiva

Sua última novela na Globo, Travessia (2022), sofreu duras críticas e baixa audiência. A autora revelou que não escolheu Jade Picon para o papel principal e que o resultado final não refletiu seu texto original. "Eu não escalei a Jade. Quem escalou foi o Ricardo Waddington. Olha, eu vou falar pouco sobre isso, porque vou comentar mais no meu livro de memórias. Mas Travessia foi um ponto fora da curva. Essa novela foi implodida por dentro. Não deu certo intencionalmente", disse.