A decisão de Gloria Perez de se afastar da Globo, motivada por divergências artísticas, não encerrou a relação da autora com a emissora. Mesmo após pedir demissão, Perez permanece vista nos bastidores como peça importante para o futuro da teledramaturgia, especialmente em um momento de redução do número de novelistas experientes capazes de comandar produções de grande fôlego no horário nobre.
Segundo jornalista Flávio Ricco, a autora deixou a casa em situação respeitosa e mantém portas abertas, repetindo trajetória semelhante à de Aguinaldo Silva. Após ser desligado do canal, o escritor retornou anos depois e atualmente assina 'Três Graças'.
O ponto central do impasse entre Gloria Perez e a Globo esteve na proposta da novela 'Rosa dos Ventos', que teria como fio condutor um aborto forçado. De acordo com pareceres técnicos citados pelo Notícias da TV (UOL), o texto foi considerado “pouco criativo” e com “repetição de histórias recentes”, além de ter sido visto como um desdobramento de tramas de 'Travessia' e 'Mania de Você'.
A autora relatou em entrevista ao Estadão que a Globo não rejeitou integralmente o projeto, mas condicionou a aprovação à retirada do aborto, elemento que, segundo Perez, estruturava toda a narrativa. “Era impossível atender: o aborto é o ponto de partida da história, tudo o mais ocorre a partir dele, todas as tramas paralelas se relacionam a ele. Tirar o aborto era tirar o macaco do King Kong”, afirmou à publicação.
No enredo original, Mabel, personagem prevista para Giovanna Antonelli, mudaria para o Rio Grande do Sul e teria sua trajetória marcada por conflitos pessoais e políticos. Murilo, marido da protagonista (Murilo Benício), envolveria-se com Cibele (Grazi Massafera), resultando em uma gravidez não planejada. Para evitar escândalos, Murilo recorreria à violência e provocaria um aborto forçado em Cibele, o que desencadearia a trama de vingança e comoção.
O argumento da novela desagradou parte dos profissionais responsáveis pela avaliação de projetos, que apontaram distanciamento da discussão sobre o direito da mulher à interrupção voluntária da gravidez e criticaram a escolha de abordar o aborto como crime de violência masculina, em vez de explorar debates contemporâneos.
Diante do impasse, Gloria Perez optou por não renovar o contrato, encerrando um vínculo iniciado em 1979 e consolidado a partir de 1990. Apesar disso, fontes ligadas à emissora não descartam a possibilidade de retorno, a depender do contexto e de futuras demandas por novelistas de perfil consagrado.
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