Uma superprodução que conecta um reino africano a uma pacata cidade do interior do Nordeste do Brasil e propõe uma união intercontinental através do amor, do desejo de justiça e do encontro com a ancestralidade. Em ‘A Nobreza do Amor’, uma fábula afro-brasileira dos anos de 1920 que chega ao horário das seis da TV Globo no dia 16 de março, a distância de um oceano não é empecilho para um encontro de almas: Alika (Duda Santos) e Tonho (Ronald Sotto), uma princesa da África e um trabalhador do Brasil, protagonistas dessa história que reúne aventura, romance, humor e grandes emoções.

Criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elisio Lopes Jr., com direção artística de Gustavo Fernández e produção de Andrea Kelly, a novela se passa em dois universos fictícios, distantes geograficamente, mas com fortes entrelaçamentos que ajudam a revelar a face de um país que tem na África a fonte de uma das suas mais nobres raízes ancestrais. De um lado do oceano, Batanga, ex-colônia portuguesa, reino da costa ocidental da África, marcada por uma disputa de poder central na trama. Do outro, Barro Preto, interior do Rio Grande do Norte, cidade onde litoral e sertão se cruzam, produzindo paisagens singulares de um microcosmo de Brasil, em seus conflitos e diversidade.

Um golpe de estado em Batanga dá início a essa trama envolvente, que reúne grande elenco e conta com cenas de tirar o fôlego. O ambicioso Jendal, vilão interpretado por Lázaro Ramos, é o responsável por trair e derrubar o rei Cayman II (Welket Bungué), usurpando seu trono, quando vê desmoronar seus planos de ascensão ao poder, que incluíam o casamento arranjado com a princesa Alika e o acordo com os ingleses para a exploração do tungstênio no país.

Na tentativa de escapar da tirania de Jendal, a família real foge, mas rei Cayman acaba se ferindo e, antes de morrer, revela à princesa e à rainha Niara (Erika Januza) o lugar para onde elas deveriam ir: o Brasil. É lá onde vive Zambi/José (Bukassa Kabengele), o irmão do rei deposto, que, anos antes, renunciou à coroa para se casar com a brasileira Teresa (Ana Cecília Costa). Além do encontro familiar, Barro Preto, o refúgio do outro lado do oceano, reserva a Alika o despertar do amor, algo inédito também na vida do jovem Tonho (Ronald Sotto)

Para os autores, ‘A Nobreza do Amor’ é um convite a revisitar a conexão entre Brasil e África através de personagens que entendem a potência de suas próprias identidades. “Essa história vai revisitar essa ligação histórica entre a África e o Nordeste do Brasil, explorando essa intersecção de culturas e realidades que nos constituíram como nação”, afirma Duca Rachid. Elisio Lopes Jr. destaca a importância dessa abordagem: “O ponto de partida da novela é a reconexão histórica entre África e Brasil, através de caminhos que, mesmo marcados por um início traumático para o povo preto, deram origem à formação do país. A trama revisita essas rotas de ida e volta, refletindo sobre identidades e nobrezas arrancadas durante o sistema de escravização e que, muitas vezes, não puderam retornar às suas origens mesmo após a abolição. No meu coração, a novela carrega justamente essa ideia: a possibilidade de reconstruir esse ‘caminho de volta’ e de destacar a realeza que existe em nós, e que nasce de nossa ancestralidade africana. A partir dessa perspectiva, construímos uma fábula que se desenrola tanto no Nordeste quanto na África. São arenas fictícias, uma cidade inventada e um reino criado especialmente para a narrativa, mas ambos profundamente inspirados no caldeirão cultural produzido por séculos de intercâmbio entre esses universos”. Júlio Fischer complementa: “É uma história que se passa em dois continentes, mas o que acontece numa arena reverbera diretamente na outra, e vice-versa. Essa é uma fábula sobre as identificações entre Brasil e África. Sobre nossa herança africana, que diz respeito a nós, brasileiros, como um todo. Independe da cor, da raça e do credo de cada um.”

O diretor artístico Gustavo Fernández fala sobre o caráter fabular da obra e seus universos: “Batanga foi concebida com referências reais da estética africana, fruto de pesquisa intensa. Já Barro Preto, situada em uma falésia, tem paisagens únicas que ajudam a construir o universo dessa trama”. As gravações, realizadas no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, contaram com locações em diversos cenários naturais, incluindo dunas, parques naturais e fortalezas históricas. A produtora Andrea Kelly destaca a passagem da equipe pelo estado potiguar: “Buscamos locações que refletissem as semelhanças entre os dois continentes, e encontramos, no Rio Grande do Norte muitos locais com visual parecido com alguns locais da África, o que foi determinante para a escolha da região onde começamos as filmagens”. Entre os cenários escolhidos para a novela estão o Parque Nacional da Furna Feia, Dunas do Rosado, Maracajaú e Barreira do Inferno, com passagens pelas cidades de Areia Branca, Porto do Mangue, Guamaré, Macau, Maxaranguape, Mossoró, Parnamirim e Tibau do Sul, além da capital Natal.

Entrevista com os autores Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr.

Duca Rachid é paulista, nascida em Mogi das Cruzes, São Paulo. Estreou na TV Globo como colaboradora de Walcyr Carrasco, em ‘O Cravo e a Rosa’ (2000) e ‘A Padroeira’ (2001). Em 2005, assinou a temporada de ‘Sítio do Picapau Amarelo’, ao lado de Júlio Fischer e Alessandro Marson. Iniciou a bem-sucedida parceria com Thelma Guedes, em 2006, com a novela das seis, ‘O Profeta’. As duas assinaram juntas, na sequência, as novelas ‘Cama de Gato’ (2008), ‘Cordel Encantado’ (2011), ‘Joia Rara’ (2013) e ‘Órfãos da Terra’ (2019), sendo as duas últimas vencedoras do Emmy Internacional de Melhor Telenovela. Em 2023, inaugurou a atual parceria com Júlio Fischer e Elisio Lopes Jr. com a novela ‘Amor Perfeito’ (2023).

Júlio Fischer é dramaturgo e roteirista, nascido em Porto Alegre (RS). Na TV Globo, é autor-roteirista desde 1997, onde foi colaborador de autores como Walther Negrão, Elizabeth Jhin, Duca Rachid e Thelma Guedes, em mais de uma dezena de novelas, entre elas, ‘Era uma Vez...’ (1998), ‘Desejo Proibido’ (2007) e ‘Cordel Encantado’ (2011). Assinou, junto com Duca Rachid e Elisio Lopes Jr., a novela ‘Amor Perfeito’ (2023). Como autor titular, esteve à frente do 'Sítio do Picapau Amarelo' (2001), com Duca Rachid e Alessandro Marson, e 'Sol Nascente' (2016), com Walther Negrão e Suzana Pires. Pós-graduado em Teatro pela Universidade de São Paulo, orientado por Barbara Heliodora, foi assessor de Bibi Ferreira no espetáculo “Brasileiro Profissão Esperança”, estrelado e dirigido pela atriz, e autor de peças como o musical “A Canção de Assis”, “Personalíssima – A vida e as canções de Isaura Garcia”, “Emilinha e Marlene, as Rainhas do Rádio”, em parceria com Thereza Falcão, e “As Brasas”, em parceria com Duca Rachid, baseado no romance homônimo de Sándor Marai.  Atua como mentor em oficinas de roteiro na TV Globo.

Elisio Lopes Jr é roteirista, dramaturgo e diretor artístico, nascido em Salvador (BA), com atuação em teatro, televisão e cinema. Fez sua estreia como autor de novelas em ‘Amor Perfeito’ (2023), dividindo a autoria com Duca Rachid e Júlio Fischer, e é coautor da série original Globoplay ‘Reencarne’ (2025). Tem em seu currículo mais de 30 textos teatrais montados no Brasil, entre eles, os musicais “Torto Arado” (2024) e “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” (2019) e as peças “A Peleja da Santa Dulce dos Pobres” (2023) e “Liberté” (2022). No cinema é um dos roteiristas de “Ó paí ó 2” (2023) e “Medida Provisória” (2022). Na TV Globo, assinou a redação final do programa ‘Lazinho com você’ (2017) e roteiros de programas como ‘Esquenta’ (2011). No Canal Brasil, assinou também roteiros do programa ‘Espelho’ (2005). Fez consultoria para os roteiros das séries ‘Fim’ (2023), de Fernanda Torres, e ‘Filhos da Pátria’ (2017), de Bruno Mazzeo. Assinou ainda o roteiro da série ficcional ‘Papo de Moleque’ (2013), na TV Brasil. Tem três livros publicados: “Carne Fraca” (1998), “Trilogia da Noite” (2017) e “Monocontos - Histórias para ler e encenar” (2021).  

Como vocês definem ‘A Nobreza do Amor’?

Duca Rachid: A novela é uma fábula. Nesse sentido, tem uma mecânica muito parecida com ‘Cordel Encantado’ (2011), mas mergulha num universo que consideramos inédito na televisão brasileira: o de retratar a África. ‘A Nobreza do Amor’ fala sobre a cultura desse continente, tão próxima de nós e, ao mesmo tempo, tão distante, justamente porque quase nunca é abordada. É importante ressaltar, no entanto, que estamos falando de um reino fictício, embora inspirado em elementos reais. A África é enorme, com uma diversidade cultural imensa, e a África da novela reúne traços de muitas tradições presentes no continente.

Elisio Lopes Jr: O ponto de partida da novela é a reconexão histórica entre África e Brasil, através de caminhos que, mesmo marcados por um início traumático para o povo preto, deram origem à formação do país. A trama revisita essas rotas de ida e volta, refletindo sobre identidades e nobrezas arrancadas durante o sistema de escravização e que, muitas vezes, não puderam retornar às suas origens mesmo após a abolição. No meu coração, a novela carrega justamente essa ideia: a possibilidade de reconstruir esse “caminho de volta”. A partir dessa perspectiva, construímos uma fábula que se desenrola tanto no Nordeste quanto na África. São arenas fictícias, uma cidade inventada e um reino criado especialmente para a narrativa, mas ambos profundamente inspirados no caldeirão cultural produzido por séculos de intercâmbio entre esses universos.

Júlio Fischer: Da alternância entre África e Nordeste nasce uma dinâmica que buscamos imprimir no texto. A intenção é que esse movimento contínuo se reflita diretamente na estrutura da novela. Um dos grandes desafios dramatúrgicos é fazer com que pareça uma única novela, mesmo trabalhando uma trama que se desenrola em dois universos paralelos, situados em continentes distintos. Para nós, autores, apesar de ser um desafio significativo, é também uma grande conquista para a obra. A proposta é que cada capítulo traga uma ampla variedade de cores, formatos e caminhos narrativos.

Como foi a pesquisa que orientou a construção de Batanga?

Júlio: Elisio fez um trabalho maravilhoso de levantamento de várias referências de diferentes regiões da África: história, personagens, estética. A gente foi bebendo de tudo isso, além de outras referências, como a nossa literatura regional, que foram sendo agregadas ao longo do processo. Misturamos esses materiais, fomos trabalhando e fazendo nossas escolhas. Não houve uma única linha ou fonte específica. O que fizemos foi selecionar, entre todas essas influências, aquilo que nos interessava para contar da melhor forma possível essa história. 

Elisio: Esse material foi compartilhado com todas as equipes – criação, figurino, arte e mais – porque, mesmo sendo uma história de ficção, queríamos que tivesse um “pé” na realidade. Isso criou para nós uma unidade, com elementos de histórias que realmente aconteceram. O levantamento é um conjunto de estudos, artigos, pesquisas e trechos que recortamos para encontrar o que nos interessava. 

Quais são os pontos de destaque e as principais mensagens que vocês procuram transmitir com a novela? 

Duca: Um dos pontos mais importantes é a consciência que Alika (Duda Santos) desperta nas pessoas ao seu redor. Por exemplo, Tonho (Ronald Sotto) trabalha em um engenho, um lugar que historicamente representa muito sofrimento para o povo preto, e ele não tem essa percepção. Ele é afilhado do dono do engenho, cresceu ali, faz parte daquele universo, mas sem consciência do que tudo aquilo significa. Alika traz essa reflexão e desperta a consciência dele, provocando uma mudança real no personagem. Aos poucos, ele começa a entender quem é e de onde veio. Outra personagem que ela transforma, por exemplo, é a Mundica (Samantha Jones), uma jovem negra que deseja ascender, ser respeitada, e acredita que só conseguirá isso através do casamento, através de um homem. Alika mostra, abre seus olhos para que enxergue sua capacidade de conquistar tudo isso por conta própria, com seus próprios recursos. A presença dela ilumina as melhores facetas dos demais personagens, despertando algo novo. Alika é uma protagonista que provoca transformação por onde passa, e essa é uma das mensagens mais fortes que a novela traz.

Júlio: Um ponto de semelhança muito interessante entre Alika (Duda Santos) e Tonho (Ronald Sotto), nosso par romântico principal, é que cada um carrega um forte senso de responsabilidade com seus coletivos, cada qual com suas particularidades. Alika se preocupa profundamente com Batanga e seu povo. O Tonho, por sua vez, tem uma ligação muito forte com sua gente, com a comunidade onde vive. Dramaturgicamente, isso enriquece muito os personagens e dá uma outra dimensão para essa história de amor. Eles não são apenas dois jovens apaixonados. Eles têm propósitos maiores, cada um do seu lado, e que depois vão unir essas forças. A existência desse ideal coletivo, que os move, é um dado fundamental para compreender as motivações dos nossos dois protagonistas.

Elisio: Essa novela é uma história sobre despertar a nossa nobreza. Cada personagem vive o despertar de uma nobreza, ou de várias nobrezas, se quisermos falar no plural. A Alika descobre o amor verdadeiro, e isso se junta a tudo que ela já tem de ideal e de força, impulsionando a jornada dela. O Tonho desperta para seu próprio valor, a autoestima e a confiança que sempre teve guardados, mas que, pelas circunstâncias do engenho, nunca conseguiu exercer. O Jendal (Lázaro Ramos) desperta para o próprio limite, porque ele parece alguém que não tem limites, como se pudesse ir a qualquer lugar, mas, em algum momento, vai encontrar esse limite. Em Barro Preto também vemos esses movimentos. A Virgínia (Theresa Fonseca) vai despertar para o fato de que não é tão maravilhosa quanto acredita ser. A Mundica (Samantha Jones) desperta para um entendimento de que a força dela não está em conseguir um marido rico, mas nela mesma. Cada personagem, cada trama da novela, traz um despertar. Um despertar das nossas nobrezas, do que temos de melhor para descobrir dentro de nós mesmos. Existe também um paralelo importante com a nobreza presente na nossa negritude, na cultura do nosso país. Tivemos um cuidado muito grande com o vocabulário e com tudo que envolve essa dimensão simbólica do termo “nobreza”, porque ele dialoga diretamente com essa identidade que queremos valorizar.

Qual é o enredo central da novela? 

Elisio Lopes Jr: A novela conta a história de uma princesa de um reino africano que, depois de um golpe, no qual o primeiro-ministro derruba um rei popular com apoio dos ingleses, vê toda sua família condenada à morte. Para salvar a vida dos pais, ela aceita se casar com o vilão, mas a união não se consuma, porque ela foge antes. Refugiada no Brasil com a ajuda de um turco que se apaixonou por ela durante uma viagem de negócios ao reino, a princesa encontra acolhimento junto ao tio em Barro Preto. Ele era o primeiro na linha sucessória de Batanga, mas veio ao Rio Grande do Norte para pesquisar tungstênio, apaixonou-se por uma brasileira e abdicou do trono para viver ao lado dela. No Brasil, a princesa encontra esse porto seguro e acaba se apaixonando por um nordestino, um trabalhador rural de um engenho de cana-de-açúcar. A história principal vai partir desse cenário.

Júlio: A partir desse ponto mencionado pelo Elisio, acompanhamos a luta da princesa para voltar ao seu país, recuperar o trono que lhe foi tirado e assumir seu lugar como futura rainha. Esse é o arco da nossa Alika (Duda Santos). E, no meio dessa jornada, surge o amor pelo plebeu brasileiro. O grande conflito passa a ser: como essa princesa, que precisa retornar ao seu continente e reivindicar sua coroa para salvar o seu povo de uma tirania cruel, vai lidar com esse novo sentimento que descobriu aqui, por um homem tão enraizado na terra que o viu nascer e tão comprometido com a sua gente?

De que maneira vocês esperam que a novela impacte o público? 

Júlio: A sociedade está acostumada a não olhar para a África. Nossa esperança é que ‘A Nobreza do Amor’ possa levar as pessoas a direcionarem seus olhares para lá. A novela não vai trazer tudo do continente, mas pode acender um desejo de conhecer mais sobre esse lugar e essa cultura tão especiais. Há tantas histórias, tantos dramas que sequer chegam até aqui, que não aparecem nos telejornais, e acabamos sem ter acesso a essa dimensão da realidade africana. Então existe, sim, um desejo nosso de que a novela deixe uma sementinha nesse sentido. Que essa fábula possa, de alguma forma, despertar curiosidade, abrir portas, criar pontes, e incentive o público a buscar mais, a procurar entender melhor a África e toda a riqueza que ela representa.

Duca: Precisamos lembrar que a África nos diz respeito, e muito. 

De onde nasce a motivação de vocês para contar essa história? 

Elisio: A novela realmente nasce do nosso amor. Esse é um registro muito importante. Nós fizemos ‘Amor Perfeito’ (2023) juntos e acabamos criando um vínculo muito forte, que despertou em nós um desejo de continuar contando histórias que façam sentido. Esse é o nosso ponto de partida. Durante um ano e meio, pensamos em várias ideias, e nenhuma delas foi aleatória. Buscávamos algo que realmente importasse para nós três. O desejo de fazer uma novela protagonizada por uma princesa preta foi nosso start, porque nunca houve uma na televisão brasileira. Passamos muitos anos vendo personagens negros colocados em posições de subserviência ou sem família, sem história, sem passado. Neste momento, para nós, é fundamental apresentar uma protagonista negra, e, além disso, um vilão negro, reafirmando que podemos ocupar esses espaços e que essas narrativas são relevantes. Os sentimentos desses personagens, independentemente se são “mocinhos” ou “vilões”, importam. Meu sonho, no fim das contas, é que as meninas pretas possam ter festas de aniversário com o tema princesa Alika, queiram ganhar bonecas da Alika de presente... Que isso alimente esse lugar de autoestima e de reconhecimento na vida das crianças negras. Esta é uma história sobre humanidade, sobre reconhecer e despertar as nossas próprias nobrezas.

Entrevista com o diretor artístico Gustavo Fernández

Natural de Porto Alegre (RS), Gustavo Fernández iniciou sua trajetória na Globo como assistente de direção, função na qual realizou seus dois primeiros trabalhos: a minissérie ‘Os Maias’ (2000) e a novela ‘Esperança’ (2002), ambas com direção de Luiz Fernando Carvalho. A partir de 2003, na minissérie ‘Um Só Coração’, passa a atuar como diretor, integrando, a seguir, as equipes de ‘Começar de Novo’ (2004), ‘Belíssima’ (2005), ‘Pé na Jaca’ (2006), ‘Duas Caras’ (2007), ‘A Favorita’ (2008), ‘Cama de Gato’ (2009), ‘A Cura’ (2010), ‘Cordel Encantado’ (2011), ‘Avenida Brasil’ (2012) e ‘Velho Chico’ (2016). No cargo de diretor geral, assinou a minissérie ‘O Brado Retumbante’ (2012), as novelas ‘Além do Horizonte’ (2013) e ‘Boogie Oogie’ (2014), além da série 'Os Dias Eram Assim’ (2017). Em 2019, realizou sua primeira direção artística com a novela ‘Órfãos da Terra’, que ganhou o Emmy Internacional na categoria Melhor Telenovela em 2020. Como cineasta, assinou a direção do filme ‘Predestinado – Arigó e o espírito do Dr. Fritz,’ em 2022. No mesmo ano, dividiu com Rogério Gomes a direção artística de ‘Pantanal’. Em 2023, assinou a direção artística da série ‘Justiça 2’ e, em 2024, da novela ‘Renascer’.

Gustavo Fernández, diretor artístico, conduz as gravações em Niterói. Crédito: Globo/Estevam Avellar
Gustavo Fernández, diretor artístico, conduz as gravações em Niterói. Crédito: Globo/Estevam Avellar

Como você define artisticamente ‘A Nobreza do Amor?’ 

A novela é uma fábula. Isso aparece tanto na criação do reino africano fictício quanto na forma como retratamos o Brasil. Quando se fala em fábula, muita gente pensa apenas nesse reino inventado, mas, curiosamente, o nosso reino africano, apesar de fictício, tem uma representação estética muito realista. O reino não existe e nunca existiu nada exatamente daquele jeito, é uma fusão de várias influências. Ainda assim, tudo o que aparece, figurino, cenografia, conceitos, é baseado em pesquisa e em elementos reais. O resultado é tão bonito, tão mágico, tão impressionante, que acaba evocando a fábula. Por outro lado, no Brasil, um país real, a cidade de Barro Preto tem uma estética ainda mais fabular do que Batanga. Barro Preto não é sertão e nem litoral; é situada numa falésia, isolada, onde o mar não é visível. Criou-se ali um microcosmo próprio. Tanto figurinos quanto cenários têm um tom a mais, não são realistas no sentido estrito, não se veste nem se comporta exatamente como na realidade.

De que maneira essa representação da África foi pensada? 

É a primeira vez que a TV Globo aborda a África nesse nível. Já houve novelas que mostraram um pouco dessa cultura, mas contar uma história centrada na diversidade africana, com tantos personagens, ao longo de toda a novela, é algo inédito. Então, mesmo sendo uma fábula, temos muita responsabilidade nessa abordagem. Não dá para trabalhar de forma leviana. 

Quais foram as referências para o núcleo de Barro Preto? 

Quando começamos a novela, pedi ao cenógrafo que criasse a cidade com uma vibe parecida com ‘Roque Santeiro’ (1985). Para mim, essa novela tem muito do clima de ‘Roque Santeiro’, esse tom característico das novelas realistas-fantásticas do Aguinaldo Silva, com personagens marcantes, cores e exageros sutis. Não chega a ser uma farsa, vale ressaltar, mas tem um tom a mais, um colorido próprio, uma identidade muito particular. 

Quais aspectos da novela chamam mais atenção?

O figurino africano é totalmente original – não existe acervo para esse universo aqui. Cada peça está sendo criada dentro da própria costura da Globo. É um trabalho extremamente artesanal, feito manualmente, detalhe por detalhe, costurado e montado com muito cuidado. É bonito de ver acontecer. Isso valoriza não só a estética da novela, mas também o trabalho da empresa, porque estamos falando de um figurino de alta qualidade, quase inteiramente produzido por mão de obra interna. Além disso, temos uma produção “fora da curva” em todos os sentidos, diferente do tradicional da novela que vemos nessa faixa de horário. 

A paleta de cores tem um papel muito marcante na identidade visual da novela. Como vocês definiram esse uso das cores entre os dois universos? 

A novela é muito colorida. A África é vibrante, Barro Preto também é vibrante, mas cada um de um jeito muito particular. Trabalhamos com paletas diferentes para cada universo: no reino africano, predominam vermelhos, ocres e tons terrosos; em Barro Preto, os verdes ganham mais força no figurino e na ambientação. Não é uma divisão simples de “quente e frio”, mas uma diferenciação de atmosferas. A fotografia acompanha essa intenção.

Quem já teve contato com a obra costuma citar referências como a novela ‘Cordel Encantado’ e o filme “Pantera Negra”. O que você pode comentar sobre essas associações?

Sobre ‘Cordel Encantado’, a estrutura lembra um reino fictício e uma cidade brasileira do Nordeste, mas a história é totalmente diferente. Essa semelhança estrutural também não é escondida. Digamos que é uma admissão carinhosa, não uma coincidência disfarçada. Há, inclusive, a intenção de resgatar alguns personagens de ‘Cordel’ para participações em ‘A Nobreza do Amor’. Em relação a Wakanda, o universo de “Pantera Negra”, essa comparação aparece por ser uma referência pop recente de um reino africano fictício. Mas não há essa aproximação com a nossa novela, Wakanda é um reino mais atual, tecnológico, ‘Nobreza’ é de época, com outra estética e temática.

Produzida nos Estúdios Globo, ‘A Nobreza do Amor’ é uma novela criada e escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elisio Lopes Júnior, com colaboração de Dora Castellar, Alessandro Marson, Duba Elia e Dione Carlos, pesquisa de Leandro Esteves e assistência de roteiro de Dimas Novais. A obra tem direção artística de Gustavo Fernandez, direção geral de Pedro Peregrino e direção de Ricardo França, Igor Verde e Mariana Betti. A produção é de Andrea Kelly, a produção executiva, de Lucas Zardo, e a direção de gênero, de José Luiz Villamarim.