Trinta e sete anos depois da estreia original, a nova versão de Vale Tudo exibe um retrato diferente das relações de trabalho doméstico, refletindo mudanças sociais profundas ocorridas no Brasil. A releitura assinada por Manuela Dias não apenas reconta a história com nova roupagem, mas atualiza o olhar sobre os empregados domésticos — figuras que, antes vistas com estereótipos, agora ganham complexidade e protagonismo.

Entre os personagens mais impactados pela reinterpretação está Bartolomeu, vivido por Luís Melo. Se na versão original ele era um marido conservador que não levantava um dedo dentro de casa, agora ele divide as tarefas domésticas com Eunice (Edvana Carvalho), inclusive se arriscando na cozinha. Essa mudança reflete um avanço no debate sobre divisão de responsabilidades no ambiente familiar.

Outra mudança simbólica foi a exclusão da personagem Zezé, que existia na trama de 1988. A ausência da empregada, antes comum em representações fictícias da elite, indica uma evolução no tratamento da temática.

Lucimar: de alívio cômico à mulher real

A diarista Lucimar, que na década de 1980 era um personagem cômico interpretado por Maria Gladys, surge no remake com nova profundidade. Interpretada agora por Ingrid Gaigher, ela continua espirituosa, mas seu papel ganha mais humanidade: mãe solo, ela luta na Justiça para garantir o pagamento da pensão por parte de Vasco (Thiago Martins), o pai de seu filho. É uma representação mais próxima da realidade de muitas mulheres brasileiras.

O mordomo Eugênio permanece — mas também evolui

Eugênio, o mordomo da família Roitman, continua na nova versão — agora interpretado por Luis Salem. Sua função permanece, assim como sua lealdade à casa, mas a figura carismática que antes fazia referências constantes ao cinema clássico americano, agora foca em apoiar emocionalmente sua patroa, Heleninha.

Mudanças que refletem o respeito aos trabalhadores

Uma das cenas mais controversas da primeira versão envolvia a copeira Daisy (Nara Abreu), que entrava no banheiro enquanto seu patrão tomava banho. Também era alvo de assédio do motorista da casa. No remake, situações como essa foram completamente eliminadas. A abordagem atual é mais respeitosa e alinhada com os avanços sociais e legais conquistados pelos trabalhadores domésticos.

A PEC das Domésticas, aprovada em 2013, é uma dessas conquistas históricas que garantiram direitos básicos à categoria. A novela se alinha a esse novo contexto, com tramas que evitam explorar relações de submissão e abuso como recurso cômico ou dramático.

Final diferente para Lucimar?

Se em 1988 Lucimar ganhava no jogo do bicho e reaparecia milionária em Mar del Plata, ostentando um visual inspirado em Odete Roitman, a expectativa é que sua jornada no remake seja mais realista — e talvez ainda mais empoderadora, conectada às lutas femininas contemporâneas.

Audiência abaixo do esperado e pressão interna

Apesar do peso do título e da força nostálgica, o remake ainda não atingiu os índices de audiência esperados pela Globo. Com média de 21,6 pontos na Grande São Paulo após nove semanas, o desempenho está apenas levemente acima de Mania de Você, que registrou 21,1 com a mesma quantidade de capítulos exibidos.

Nos bastidores, circulam rumores de ajustes em roteiro e ritmo, embora a emissora mantenha o cronograma original. A previsão é que Vale Tudo fique no ar até outubro.

Com o encerramento do remake se aproximando, a Globo já trabalha na produção que o substituirá. Intitulada provisoriamente "Três Graças", a nova trama será assinada por Aguinaldo Silva e promete recuperar o tom clássico das grandes novelas da emissora, com estreia marcada também para outubro.