Às vésperas da estreia de Três Graças, nova novela das nove da Globo, Aguinaldo Silva (80) revisita marcos da própria carreira e descreve a premissa de sua nova trama — escrita com Virgílio Silva e Zé Dassilva — enquanto responde às inevitáveis comparações com Vale Tudo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o autor reforça que o público “vira a página” a cada estreia e detalha, à assessoria da Globo, um enredo de forte recorte social ambientado em São Paulo, com foco em três gerações de mulheres e temas como gravidez na adolescência, desigualdade e corrupção ligada a remédios falsificados.

Jornalista de formação e um dos nomes mais populares da teledramaturgia, Aguinaldo coleciona títulos que moldaram o gênero nas últimas décadas: em parceria com Dias Gomes, assinou Roque Santeiro (1985); ao lado de Gilberto Braga e Leonor Bassères, coescreveu Vale Tudo (1988); e, com Ricardo Linhares e outros colaboradores, entregou sucessos como Pedra Sobre Pedra (1992), Fera Ferida (1993), A Indomada (1997), Senhora do Destino (2004), Fina Estampa (2011) e Império (2014) — esta última vencedora do Emmy Internacional de Melhor Novela. Depois de O Sétimo Guardião (2019), Três Graças marca seu retorno seis anos após a última obra inédita.

Em conversa com o jornal, o autor aborda a repercussão de suceder um clássico que se despede no próximo dia 17"‘Vale Tudo’ foi uma novela incrível, nas duas versões, tanto a original quanto o remake. Mas o telespectador quer ver a novela que está começando. Quando uma acaba, ele embarca na próxima e vira a página", afirmou.

Ele também reforça o caráter vivo do folhetim: "A novela é uma obra aberta. Se eu percebo que o público não gostou de algo, eu mudo. O espectador é o verdadeiro autor —ele escreve a versão final". Segundo o autor, o “termômetro” mais confiável está fora das redes: "As redes são importantes, mas nelas as pessoas são mais duras, porque é isso que gera engajamento. Já nas conversas do dia a dia, vem a sinceridade, sem filtro".

O cenário e a premissa: o que diz a assessoria da Globo

Ao detalhar a nova novela, Aguinaldo define a espinha dorsal do enredo: 

Do que trata Três Graças?

"‘Três Graças’ fala de três mulheres que foram mães muito cedo, aos 15 anos, que não tiveram o apoio dos pais das crianças e foram à luta, passaram por situações extremas. (…) Nossa protagonista, a Gerluce (Sophie Charlotte), (…) repetiu o destino da mãe Lígia (Dira Paes): engravidou de Joélly (Alana Cabral) na adolescência. (…) Ao mesmo tempo, ao se ver diante de corruptos que prejudicam uma multidão de doentes em benefício próprio e com a mãe entre a vida e a morte, Gerluce encara um dilema. Até onde ir quando se precisa batalhar pela sobrevivência?"

Ambientação e temas atuais

"A novela se passa em dois ambientes: a comunidade fictícia Chacrinha (…) e os bairros nobres de São Paulo, onde estão os responsáveis pelo crime dos remédios falsos. (…) Estamos criando uma novela com uma linguagem bastante popular e abrangente (…) É uma obra da atualidade, do ônibus, do metrô, do trem, mas não será uma novela naturalista: a ficção é a base para a nossa criação. (…) Teremos (…) a questão da gravidez na adolescência; falaremos de corrupção e falsificação de remédios. Também vamos abordar aspectos da nossa sociedade. Tudo isso num contexto ficcional."

Por que tratar da gravidez na adolescência

"Quando eu estava escrevendo ‘Duas Caras’, (…) fui fazer uma pesquisa na maternidade Leila Diniz, no Rio de Janeiro. (…) percebi que a maioria dessas mulheres eram meninas. (…) Isso me chocou profundamente (…) Um amigo (…) falou uma frase que me marcou: ‘Você está vendo algum homem aqui?’. (…) Achei que um dia eu teria de escrever sobre elas, e foi, na verdade, desse meu compromisso que surgiram essas três Graças."

Clique aqui para ler a entrevista completa com Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva e o diretor Luiz Henrique Rios.

A construção de Gerluce (Sophie Charlotte), Lígia (Dira Paes) e Joélly (Alana Cabral) retoma a tradição do folhetim popular de Aguinaldo — dilemas morais, viradas sucessivas e crítica social — agora transposta à maior metrópole da América Latina. O contraponto vem do núcleo dos vilões, onde corrupção e falsificação de medicamentos tensionam a trama e impulsionam a jornada das protagonistas. A expectativa, sustentada pelas declarações do autor e pelo histórico de obras com alta identificação popular, é de uma narrativa aberta à resposta do público e atenta ao debate social.

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