O Planeta TV

Alcides Nogueira conta detalhes sobre "Ciranda de Pedra"

Alcides Nogueira conta detalhes sobre "Ciranda de Pedra"

Alcides Nogueira Pinto (Botucatu SP 1949). Autor. Dramaturgo que evolui dos temas ligados à contracultura dos anos 1970 para enfoques sociais, privilegiando sempre a ótica da juventude. Sua produção dos anos 1990 envereda pelo trabalho sobre a linguagem, como uma revisão das vanguardas históricas.

Formado em direito pela Universidade de São Paulo - USP, em 1974, estréia nesse ano com A Farsa da Noiva Bombardeada, uma releitura da montagem de O Casamento do Pequeno Burguês, de Bertolt Brecht, encenada por Marcio Aurelio, diretor com o qual possui muitas afinidades. Em 1978 é a vez de Tide Moreyra e Sua Banda de Najas, espetáculo metalingüístico, que possui na contracultura seus maiores pontos de referência. Com Tietê, Tietê... ou Toda Rotina Se Manteve Não Obstante o que Aconteceu, encenada em 1979, realiza uma ácida análise da Semana de Arte Moderna e suas principais figuras. Em O Filho do Carcará, 1980, com parceria de Marcio Aurelio, Alcides Nogueira monta uma coleção de cenas, com personagens arquetípicas dos anos 1970 envoltas em situações características do período, voltando assim ao tema da juventude e suas expectativas.

Em 1981 confere um tratamento realista à trama de Lua de Cetim, seu primeiro indiscutível sucesso, outra encenação bem urdida por Marcio Aurelio. Em 1982, lança uma adaptação do romance Madame Pommery, de Hilário Tácito, encenação de Antônio Abujamra, ambientada num cabaré. Uma nova adaptação, a de Feliz Ano Velho, realizada sobre o romance de Marcelo Rubens Paiva, leva-o ao reconhecimento nacional, por meio da encenação de Paulo Betti, pelo grupo Pessoal do Victor, espetáculo que recebe muitos prêmios em 1983.

Sob a direção de Jorge Takla, surge em 1986 Lembranças da China, com texto marcado pelas inversões da narrativa, no qual explora um triângulo amoroso que inclui os tabus da homossexualidade. Esse aporte experimental é radicalizado em Ópera Joyce, na qual o escritor irlandês James Joyce é personagem e metapersonagem de si mesmo, com diversas paráfrases do romance Ulisses incluídas como trama do texto. A encenação de Marcio Aurelio, em 1988, consolida o prestígio do autor, além de confirmar o talento de Vera Holtz. Escreve também, no ano seguinte, Paris-Belfort, ácida crítica aos tempos e personagens da Revolução Constitucionalista de 1932, até hoje inédito. Em 1990, participa do projeto Maioridade de 68, conduzido por Francisco Medeiros, criando Antares, um texto que volta aos temas e personagens da juventude do passado, projetando-os para a contemporaneidade.

Com direção de Cibele Forjaz estréia, em 1991, Florbela, uma síntese biopoética da delicada poeta portuguesa Florbela Espanca, protagonizada por Denise Del Vecchio. Em 1994, volta à cena, em nova direção de Marcio Aurelio, As Traças da Paixão, ambígua narrativa em torno de um casal de amantes que trocam de papéis.

Em 1996, apresenta novo texto Gertrude Stein, Alice B. Toklas, Pablo Picasso, que encontra no encenador Antônio Abujamra um generoso colaborador, criando um espetáculo inquietante em torno das relações estabelecidas entre o trio personalidades do começo do século. Essa perspectiva metalingüística e paraliterária volta a preocupar o dramaturgo nas suas criações mais recentes. Com Ventania, de 1996, estreada no Rio de Janeiro por Gabriel Villela, debruça-se sobre a vida e a obra de José Vicente, dramaturgo do final da década de 1960, que, após fulgurante carreira (com a realização dos clássicos O Assalto e Hoje É Dia de Rock), abandona a vida artística. Em Pólvora e Poesia, de 1999, coloca em cena a vida, a paixão e a obra dos poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, novamente encenado por Marcio Aurelio no ano seguinte, conferindo-lhe Prêmio Shell de melhor autor.

Em 2002, lança A Ponte e a Água da Piscina, peça voltada ao realismo fantástico, fábula simples e aberta, na qual a mãe castradora disputa amante com a filha. No mesmo ano, está presente em À Puttanesca, espetáculo composto por monólogos de quatro autores: ele, Mário Bortolotto, Aimar Labaki e Bosco Brasil, com interpretação de Francarlos Reis, sob a direção de Marco Antonio Rodrigues. O texto de Nogueira neste conjunto chama-se Abzoluta, uma trama novelesca sobre um homossexual que intenta mudar de sexo. Em 2003, escreve A Cabeça, que é montada no ano seguinte, sob a direção de Marcia Abujamra. O texto trata da ética na criação teatral por meio do dramaturgo, da personagem e da rubrica. Com humor, eles expõem a perplexidade do criador diante de sua criação e convocam o espectador a inventar seu próprio espetáculo. No elenco, Débora Duboc e Elias Andreato.

Para a TV Globo, co-escreve novelas de sucesso, como Força de um Desejo, Torre de Babel, O Amor Está no Ar, Pátria Minha, Rainha da Sucata, Direito de Amar, De Quina pra Lua.

Segundo o diretor Marcio Aurelio, assíduo encenador de sua obra, Alcides Nogueira "é um dos mais notáveis autores brasileiros contemporâneos, por seu caráter investigador e transformador da cena, ética e esteticamente. Seu projeto dramatúrgico leva em consideração o movimento e o momento nos quais está inserido trazendo consigo o universo de referências culturais que pautaram as grandes transformações do século vinte. É a partir delas que constrói sua cena redimensionando a realidade. Desde as primeiras obras o que mais impressiona é a licença poética para a criação e recriação de personagens e situações, possibilitando um ácido discurso sobre a transformação política, social e estética da vida brasileira".

Com informações do site Enciclopédia Itaú Cultural de Teatro - www.itaucultural.org.br

O site "O Planeta TV!" convidou o autor para um bate-papo e falar sobre sua carreira, bem como, a estréia de sua próxima novela: "Ciranda de Pedra".

O Planeta TV! – Bom, em primeiro lugar, Alcides, o site agradece à sua atenção e também por conceder esta entrevista.

Alcides Nogueira – Fico muito feliz em estar novamente aqui, neste site tão acolhedor e tão importante para a divulgação da teledramaturgia.

O Planeta TV! – Sua primeira novela solo foi “De Quina Pra Lua”, um grande sucesso para a época. Depois disto você colaborou com vários autores, tais como, Walther Negrão, Lauro César Muniz, Sílvio de Abreu, Gilberto Braga e Maria Adelaide Amaral. Como você avalia essas parcerias de grande sucesso?

Alcides Nogueira – Foram parcerias importantíssimas para mim, com todos os autores citados. Aprendi muito com todos eles, além da convivência carinhosa. Hoje, além de companheiros de trabalho, somos amigos.

O Planeta TV! – Sua segunda novela foi “O Amor está no ar” em 1997. Na época a novela não teve um bom desempenho de audiência. O que você atribui ao fato: a abordagem sobre extraterrestre ou a química entre os personagens Sofia (Betty Lago) e Léo (Rodrigo Santoro)?

Alcides Nogueira – Foi uma somatória de equívocos. Até hoje defendo, com unhas e dentes, que a trama era boa. Talvez pudesse ser melhorada, mas eu tinha o Sílvio de Abreu como supervisor, e ele, além de ser um mestre, é honesto e íntegro. Não me deixaria errar. O elenco, quando houve a crise, foi totalmente solidário a mim, e jamais me esquecerei disso. Acho que o maior problema foi a época: a Globo estava passando por uma grande mudança, com a saída do Boni... e isso afetou muita coisa.

O Planeta TV! – Nos últimos anos, você escreveu minisséries de grandes sucessos, como “JK” e “Um só Coração”. Por que você ficou tanto tempo sem escrever novelas solo? Tem preferências por minissérie?

Alcides Nogueira – Antes das minisséries, escrevi uma novela solo, que é considerada, até hoje, como uma das mais bonitas exibidas pela Globo: “Força de um Desejo”. A sinopse original é minha, e foi retrabalhada a quatro mãos com o Gilberto Braga. Só depois é que fui para as minisséries. Minissérie é um produto que atrai todos os autores. Ela nos oferece mais tempo de preparação, uma pesquisa mais profunda, e é mais curta. Mas gosto muito de novelas, também. .

O Planeta TV! – Nos últimos anos as telenovelas vêm passando por uma transformação. Algumas estão mais preocupadas com a inovação do que com a própria história. Como você avalia estas mudanças feitas por alguns autores para manter uma boa audiência?

Alcides Nogueira – A audiência é o carrasco do autor! E não há como mudar isso, já que trabalhamos para emissoras comerciais, que têm em vista o espectador e o mercado. Algumas transformações são boas, como a maior agilidade das tramas, por exemplo. Outras são descartáveis, como os apelos fáceis. Uma das minhas preocupações, com “Ciranda de Pedra” é resgatar o bom folhetim. Já está mais do que provado de que ele é que atrai o público.

O Planeta TV! – Você mudaria alguma coisa na sinopse de sua novela por causa de uma baixa audiência?

Alcides Nogueira – O espectador brasileiro é muito inteligente e sagaz. Se ele rejeita uma trama, ou uma personagem, deve haver uma razão para isso. E, na verdade, não vejo drama algum nessa questão. Gosto da interatividade que existe entre público e TV. É lúdica e, no fundo, o espectador é uma espécie de co-autor das novelas.

O Planeta TV! - “Ciranda de Pedra” é uma adaptação da obra de Lygia Fagundes Telles ou um remake da novela de Teixeira Filho, em 1981?

Alcides Nogueira – Faço questão absoluta de afirmar que se trata de uma nova adaptação, e não de um remake da novela do Teixeira Filho. Eu estava morando na Suíça, quando ela foi exibida. Voltei ao Brasil em novembro de 1981, quando já estavam sendo exibidos os capítulos finais. Quando comecei a montar o projeto, li muitos capítulos do Teixeira. Ele foi um grande novelista, mas há muitas diferenças entre o enfoque dele e o meu. O Teixeira foi muito mais para uma visão social do livro da Lygia, e eu fiquei na psicológica.

O Planeta TV! – Por que a novela leva o nome de “Ciranda de Pedra”?

Alcides Nogueira – É o nome do romance de Lygia Fagundes Telles. Um nome emblemático, porque já traduz o que a novela vai mostrar: pessoas que querem viver suas vidas, mas que estão encerradas, presas umas às outras, às lembranças e vivências alheias.

O Planeta TV! - No livro, Laura, acaba morrendo de amor por Daniel. Nesta adaptação, a personagem de Ana Paula Arósio também morrerá?

Alcides Nogueira – Laura morrerá, sim. Essa morte tem um significado profundo. Mostra como uma pessoa, como Laura Prado, sofre – e muito – por conta de sua doença emocional. A morte é uma libertação, para ela. Mas ela não morre de amor por Daniel, mas sim consumida por suas angústias.

O Planeta TV! – Nesta nova versão a grande protagonista será Laura ou Virginia?

Alcides Nogueira – As duas. Laura é a protagonista adulta; Virgínia, a jovem. Uma não existe sem a outra. Laura cumpre sua trajetória em direção à morte; Virgínia, em direção à vida. E ambas são unidas por muito carinho e afeto.

O Planeta TV! - Viviane Pasmanter não pode fazer o papel de Lígia, é, verdade que você vai mudar o perfil da personagem? O que muda com a troca da atriz?

Alcides Nogueira – Infelizmente a Viviane não poderá fazer esse papel. Como é uma personagem que só entra na terceira parte da trama, ainda não decidi o que fazer. Só resta lamentar não ter essa atriz maravilhosa no elenco.

O Planeta TV! - Já existe alguma atriz previamente escalada para interpretá-la?

Alcides Nogueira – Não. Denise Saraceni, Carlos Araújo e eu decidimos deixar isso para depois. Até porque na Globo, hoje, escalação virou uma guerra!

O Planeta TV! - É verdade que a estréia de “Ciranda de Pedra” foi antecipada?

Alcides Nogueira – Foi antecipada em cinco semanas. Além do esforço de guerra que isso exigiu, fiquei triste pelo Negrão. Gosto muito de “Desejo Proibido”. Infelizmente a novela estreou em horário de verão, e já está provado que isso é um risco tremendo. Tanto que “Ciranda de Pedra” será uma novela curta, para não prejudicar a sua sucessora – “Paraíso”, de Benedito Ruy Barbosa.

O Planeta TV! - Com quantos capítulos escritos você estreará a novela? Trabalhar com muitas frentes sem saber a aceitação do público não preocupa?

Alcides Nogueira – Vou estrear com trinta capítulos escritos. E já acho uma temeridade. Só fiz isso porque foi um acerto com a produção. Como a novela é muito sofisticada, e houve a antecipação, não havia outra saída, para garantir a frente. Mas, sem dúvida, a aceitação do público é sempre imponderável. Por mim, eu entraria no ar com dezoito capítulos, mas seria inviável.

O Planeta TV! - A classificação etária na TV vai impedir de abortar alguns assuntos que constam no livro?

Alcides Nogueira – A classificação etária, da maneira como é feita hoje, é uma censura disfarçada. Pior, ainda, que nos tempos da ditadura (e posso dizer isso de cátedra, pois meu teatro foi, muitas vezes, retalhado). Seria muito mais saudável que as próprias emissoras (com seus autores) estabelecessem um Código de Ética. Tudo que é imposto é ruim. Por causa disso, não poderei tratar do lesbianismo, da impotência, do suicídio, da eutanásia... Mas, depois de entrar em crise, descobri que uma forma de criar polêmica é não criar polêmica. Posso falar de tudo isso de uma maneira metafórica. Já vi esse filme antes e sobrevivi.

O Planeta TV! - Atualmente o horário das 18h, vive um momento delicado em termos de audiência. Como você avalia esta fase? Está preocupado quanto à aceitação de “Ciranda”?

Alcides Nogueira – A aceitação de um trabalho preocupa o autor, qualquer que seja o horário. Mas concordo: a faixa das 18 está atravessando um momento difícil. Talvez um dos motivos seja o caos do trânsito nesse horário. Quem consegue chegar em casa às seis da tarde? Só quem não saiu (rs).

O Planeta TV! – O público das 18h está acostumado com muita comédia. “Ciranda” vai ter núcleos cômicos?

Alcides Nogueira – Vários núcleos cômicos. Eu, particularmente, gosto de comédias, e aprendi, principalmente com o Sílvio de Abreu, que o humor serve, também, para contrabalançar as emoções mais fortes das outras tramas. Vem muito riso por aí!

O Planeta TV! – “Ciranda” está prevista para ter apenas 132 capítulos, terminando na primeira semana de outubro para que a próxima não entre durante o horário de verão. Para um autor, as tramas curtas possibilitam uma melhor elaboração?

Alcides Nogueira – Sem dúvida alguma. A novela fica enxuta, sem gorduras, contando a história de uma maneira mais direta e vertical. Fora que cansa muito menos, porque escrever uma novela é entrar num túnel e rezar pra sair vivo dele, meses depois.

O Planeta TV! – Bom, agradecemos à sua atenção e desejamos sucesso para “Ciranda de Pedra”.

Alcides Nogueira – Eu é que agradeço o espaço que vocês me deram. Obrigado pela torcida!

"CIRANDA DE PEDRA" ESTRÉIA NESTA SEGUNDA (05/05) ÀS 18H NA TV GLOBO.

CLIQUE AQUI PARA VER O ESPECIAL SOBRE A NOVELA




Comentários (0) Postar Comentário

Nenhum comentário encontrado. Seja o primeiro!

Veja também